Lá se vão 18 anos desde que a Berlinale ouviu um coro, à moda dos gregos, na sua seleção competitiva de longas-metragens, a cantar os infortúnios do Destino nas suas articulações para decidir o rumo das vidas humanas: era o coro de “Head On”, de Fatih Akin, laureado com o Urso de Ouro em 2004. Em 2022, um novo corifeu, bem distinto daquele, soltou a sua voz na 72ª edição da maratona cinéfila germânica, reunindo adolescentes suíços nos Alpes, a contabilizar os efeitos do acaso na rotina de um casal recém-formado de uma região rural repleta de agricultores e pecuaristas . É um coro que aparece sazonalmente ao longo dos 136 minutos de “Drii Winter” (“A Piece of Sky”), mas quando o faz pontua, de maneira poética, a dimensão trágica das desgraças que podem acometer o mais plácido dos lares. Placidez, aqui, é um elemento essencial pois a narrativa – de elipses cronológicas cirúrgicas – choca-nos com os mais brutais retratos da perda de empatia de um homem acometido por um tumor cerebral devastador, o qual seca as suas emoções de forma a desdramatizar gestos corriqueiros. E essa condição, num ambiente que nos parece paradisíaco, à primeira vista, tem o seu efeito exponenciado na plateia a partir da primeira meia hora de envolvimento com aquele mundo. A realização é assinada por Michael Koch, ator e cineasta nascido em Lucerna, região que fala alemão na Suíça. Realização essa que prima pela economia, cortando planos que poderiam descambar no sensacionalismo.
Orientada por Koch para despistar qualquer indício de cartão-postal a ser encontrado ao seu redor, na exuberância dos Alpes, a fotografia de Armin Dierolf busca sempre evitar planos abertos e se dedica a detalhes. As exceções estão nas sequências em que o realizador de “Marija” (2016) precisa mostrar como é o trabalho das suas personagens nas montanhas, como funciona o fluxo de transporte de arbustos por meio de teleféricos e como se dá o cuidado com o gado. Todo o elenco é de intérpretes sem experiência profissional. Os protagonistas são Michèle Brand, como empregada de um bar Anna, e Simon Wisler, como o vaqueiro Marco.
Há um amor regado a raios de sol entre os dois na paisagem de Alois, uma remota aldeia alpina suíça. Anna tem uma filha, Julia, de um relacionamento anterior. Mas ela é como filha para Marco. A cumplicidade naquele par é perfeita. Mas um triângulo indesejado – e sem prazer – vai devassar a paz entre eles, quando o corpo do rapaz é lastimado por uma doença cancerígena que lhe devora o cérebro. Uma frase do guião expressa o mal que se avizinha: “Uma tempestade levou Marco à força”.
Antes de ser diagnosticado, Marco só demonstrava tristeza quando uma de suas vacas caia doente. Ele tinha a fauna à sua volta como um lar. E não se trata de um desenho ingénuo da personagem. Koch buscou retratar a relevância essencial dos animais e das plantas para quem vive em universos rurais, longe do progresso urbano, sem bolsões de betão armado. Num Éden como aquele, os bichos eram tudo o que aquele homem do campo tinha. Daí todo o seu deslumbre quando uma jovem com os brios de Anna decide se juntar a ele.
Quando a guilhotina do tumor cai, Koch usa o seu coro para dizer que uma peste moral vai ser a companheira do mal físico de Marco. Um incidente que ele comete leva toda a Alois a virar-se contra ele. Toda menos Anna, que segue impávida, fiel a um projeto de paixão que Koch esquadrinha numa autópsia em corpo vivo da solidariedade.




















