Godardiano na sua essência semiótica, preocupada em entender a pandemia como um signo de catástrofe, “Coma” cai no abismo do formalismo elegante na sua porção não narrativa, quando se preocupa em espatifar imagens que nos bombardearam com retratos da vida em dois anos de Covid-19 a partir de filtros dos mais inventivos.
Mas há uma segunda porção – esta dedicada a narrar – na nova longa do francês Bertrand Bonello que o distingue de um campo linguístico no qual a fruição sensorial de planos alquebrados conta mais do que jornadas. Essa porção traz algo que o realizador de “O Pornógrafo” (2001) havia apenas (e mal) arranhado: o humor. Ri-se de contrair a barriga, ao limite da gargalhada, com o jogo semiológico estabelecido por Bonello com Barbie’s e Ken’s a partir de um texto hilariante. É uma comédia que coloca muito Laurent Tirard no chinelo, em especial quando o Ken ganha a voz e a ironia de Louis Garrel.
Pensado como um cartão-postal de estímulo ao futuro “escrito” por Bonello para a sua filha, com o alfabeto do cinema e das artes visuais, “Coma” chega ao 72º Festival de Berlim como um centauro onde as duas metades se harmonizam. O lado mais videográfico, mais perto da videoarte, é de uma liberdade radical e esbanja poesia no seu empenho de fazer uma crónica de um tempo de incerteza. Já no seu lado de piada, cómico, com as bonecas, segue uma estrutura de obra encenada de curta duração, acoplando-se a duas estruturas. De um lado há uma menina (Louise Labeque) que dá vida àqueles brinquedos. Do outro, nos devaneios da mesma jovem, aparece uma espécie de YouTuber com aura de profeta, Patricia Coma (vivida com inteligência por Julia Faure). É dela que brotam algumas das reflexões mais mordazes de Bonello em relação ao que a juventude ainda pode fazer.
Dono de uma obra irregular, mas autoral, pautada por uma investigação sobre o desejo, Bonello tem criado filmes desde que lançou a curta “Qui Je Sui“, em 1996, onde já apostava numa semiologia da afirmação da sociedade francesa. Depois de “Nocturama” (2016), o cineasta embarcou por longas-metragem que se interessam por angústias juvenis. “Coma“, de certa forma, equilibra estas duas vertentes com ritmo. Não chega a ter a potência de “Saint Laurent” (2014), o seu melhor filme, mas é um caminho renovador.



















