Berlim serve de entrada na Europa de muitos filmes estreados em Sundance e este “A Love Song“, projeto que marca a estreia nas longas-metragens de Max Walker-Silverman, chegou ao certame alemão já com algum hype.

A verdade é que além da interpretação desarmante de Dale Dickey, esta história que tantas vezes nos faz lembrar “Nomadland” ou “Into The Wild” não consegue nunca deixar de se sentir uma curta-metragem enfiada no corpo de uma longa, sendo particularmente frustrante a extensão (esticanço) de alguns momentos que se sentem estar ali apenas para acrescentar minutos.

Faye (Dale Dickey) vive isolada num acampamento em nenhures à beira de um lago. A sua rotina passa pela contemplação perante uma paisagem natural desarmante e a visita de várias personagens cómico-trágicas, como um grupo de homens que têm como porta-voz uma pequena garota, um casal de lésbicas e um carteiro de quem ela espera receber uma carta. A presença de Faye ali está também marcada pela sua espera por alguém – um amigo de infância (Wes Studi) – e este isolamento sente-se algures entre o natural e o imposto, como que nos dizendo que ela está ali para ultrapassar várias feridas e até remorsos para com o passado.

Max Walker-Silverman consegue manter o seu filme à tona da água pela destreza de Dickey em habitar Faye através de uma contenção permanente na expressividade, ficando sempre na mente do espectador a forma misteriosa de vida de uma mulher marcada fisicamente e psicologicamente pela vida. Os seus momentos com Lito (Wes Studi) acrescentam camadas de empatia e romance, mas “A Love Song” nunca consegue deixar a sua forma de conto derivativo e pouco explorado, embora exista nele um coração que empaticamente nos cola a Faye e ao seu enquadramento com uma natureza tão inóspita como bela.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
critica-a-love-songO filme não consegue nunca deixar de se sentir uma curta-metragem enfiada no corpo de uma longa.