Quatro anos depois da sua primeira incursão nas longas-metragens, “Hurry Slowly”, o norueguês Anders Emblem volta a pegar em alguns elementos que começam a definir a sua atenção cinematográfica. Novamente temos o foco numa personagem no feminino, a ação numa pequena localidade, e o verão. Mais ainda, os espaços entregues ao vazio e ao silêncio facilmente contrastam com os gritos internos que sugestivamente ouvimos nas personagens presentes entregues à rotina.

E tal como no cinema de Angela Schanelec, a ação de “A Human Position” vai-se escondendo diretamente da lente do cineasta, passando nas entrelinhas para o espectador através da relação intrínseca entre o estado de espírito das pessoas e os lugares que habitam.

Além de  Asta (Amalie Ibsen Jensen), uma jovem jornalista que volta ao trabalho após um evento não revelado, e da sua namorada carpinteira, Live (Maria Agwumaro), a própria cidade norueguesa de Ålesund afigura-se como uma personagem que nos acompanha permanentemente, quer seja pelo que vemos (ruas desertas que se nos afiguram através de planos fixos e longos que transmitem tanta solidão como tranquilidade), quer pelas histórias dela que vamos ouvindo (banais como em qualquer pequena cidade).

É precisamente uma dessas histórias, que sai da caixa da normalidade, a questão de um imigrante que será expulso do país injustamente, que vai despertar em Asta uma reconfiguração moral, um despertar social, um abanão à sua própria condição, tudo apresentado num jogo de introspecção e revolta silenciosa onde um misto de traumas passados, relações tensas no presente e injustiças alheias a levam a afinar, qual erro de paralaxe, toda a sua vida e condição humana.

Sem anseios de aumentar a rotação da vida das personagens, que pela natureza do local, consideravelmente longínquo do corrupio das metrópoles, Emblem prefere apresentar tudo paulatinamente de maneira realista, carregando apenas os elementos para lhes dar um tom mais cinematográfico, acentuando os contrastes e a artificialidade da vida das personagens (fechadas em si) num espaço profundamente antinatural.

Um gato extremamente fotogénico, um fascínio pela construção de cadeiras e cadeirões, e outros pequenos detalhes tanto nos levam à obra de Murakami como a Hamaguchi e até Hong Sang Soo, mas o ritmo e o silêncio permanente – escassos diálogos, os longos planos fixos – acabam por transmitir mais desconcerto que quietude, uma estranha sensação de bonança antes da tempestade. E esse estado latente de transfiguração em surdina acaba por ser a chave, produzindo Emblem um retrato de vidas triviais entregues à melancolia, abalroadas por um despertar que nunca deixa de ser demasiado silente e inócuo para realmente produzir qualquer efeito no espectador. 

Pontuação Geral
Jorge Pereira
a-human-position-reconfiguracao-socialO ritmo e o silêncio permanente - escassos diálogos, os longos planos fixos - acabam por transmitir mais desconcerto que quietude, uma estranha sensação de bonança antes da tempestade