Proveniente de um país sem grande tradição cinematográfica, como a própria nos disse numa grande entrevista há um ano, a primeira alfabetização artística de Paz Encina, aluna de direito transformada em jornalista e depois cineasta, foi a música e isso permanece até hoje como formadora da estrutura do seu pensamento criativo, que inevitavelmente toca em temas políticos através de elementos poéticos, fundamentalmente, mas não só, de génese pictórica.

Influenciada por Bresson, Kiarostami, Chris Marker, Farocki e principalmente Ozu, Encina tem o seu percurso na 7ª arte vincado na abordagem a questões históricas ligadas ao Paraguai, destacando-se obras construídas em torno da ditadura militar que fustigou a sua nação (1954 a 1989), a partir do que chama dos “Arquivos do Terror” [onde se incluem a trilogia de curtas-metragens “Famíliar” (2014), “Arribo” (2014) e “Tristezas de la lucha” (2016); além da sua segunda longa-metragem, “Ejercícios de memória(2016)] -, e  “Hamaca Paraguaia” (2006), uma primeira longa que tocava noutro tópico sensível, a Guerra do Chaco, ocorrida de 1932 a 1935.

Incapaz de dissociar ficção e documentário, Encina partiu para a sua 3ª longa-metragem, “Eami”, uma outra história de perda (como Hamaca Paraguaia) visitando o coração do Chaco Paraguaio, um tubo de ensaio laboratorial que serve como recipiente para tocar em questões colonialistas e neocolonialistas, um exercício sobre conquista, invasão e submissão, mostrando a situação dos povos indígenas forçados a deixar o campo.

Mais uma vez carregado de significado político, acreditando no poder da imagem e dos seus múltiplos significados, que adicionam camadas de leitura encriptada a um filme onde as palavras e o “tempo”  têm a sua dimensão muito própria, Encina entrega ao espectador um filme profundamente simbólico, sensorial e urgente sem um peso excessivo da vertente pedagógica e didática.

E talvez nunca antes no seu cinema, como assistimos em “Eami”, Encina tenha dado tanto poder, importância e relevo ao exercício de montagem, confiado a tarefa a Jordana Berg, conhecida pela sua colaboração histórica com o brasileiro Eduardo Coutinho. “Coutinho é uma das melhores coisas que aconteceram no cinema latino-americano e ao próprio cinema documentário”, disse-nos Encina muito antes de lançar este “Eami” no Festival de Roterdão, explicando assim que no coração e cabeça desta sua parábola devastadora está a sua montadora, que num trabalho notável não só joga com o “tempo”, mas acentua – com igual importância da direção de fotografia Guillermo Saposnik e o guião da própria Encina – toda a fragilidade, desequilíbrios (naturais*, étnicos, raciais, sociais, políticos) e dor na relação entre nativos e conquistadores.

Espesso em significado e carregado de elementos poéticos e místicos, “Eami” revela-se assim um triunfo exemplar e uma exploração cinematográfica ímpar, confirmando Encina como uma das grandes vozes do cinema mundial.

* O Chaco Paraguaio é o território com a maior taxa de desmatamento do mundo

Pontuação Geral
Jorge Pereira
eami-a-dor-asfixiante-da-conquistaA terceira longa-metragem de Paz Encina venceu o prémio máximo no Festival de Roterdão