A retrospetiva que a Cinemateca Portuguesa organiza juntamente com a 13ª Festa do Cinema Italiano celebra o ano do centenário do nascimento de Federico Fellini, integrando todos os filmes deste cineasta, porventura um dos maiores nomes do Cinema. E como se esta celebração da sétima arte não bastasse, o outro grande ciclo do mês de novembro propõe a descoberta daqueles momentos de cinema que transcendem qualquer linha lógica, em que vinga a pura linguagem cinematográfica e se criam grandes mitos e cenas lendárias. Momentos que nos levam a exclamar “Só o Cinema”! De Griffith a Manoel de Olveira, passando por Bergman, Bresson, Mizoguchi e Akerman, novembro promete ser um dos meses mais recheados do ano.
Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 16 a 21 de novembro:
– Tystnaden (O Silêncio, 1963) – Segunda-feira, 16 de novembro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Fecho da trilogia “sobre o silêncio de Deus” (depois de Em Busca da Verdade e Luz de Inverno), O Silêncio foi, à época, proibido em vários países, entre os quais Portugal, e mutilado pela censura em outros. Neste filme sobre o silêncio de Deus, a última palavra a ser pronunciada, numa língua que as protagonistas (duas mulheres em viagem em terra estranha) não percebem, é “alma”. O silêncio de Deus passa a ser o silêncio sobre Deus, a impossibilidade de falar de Deus. Um filme austero, em que Ingrid Thulin, num dos seus maiores desempenhos, asfixia na luz branca do silêncio. O sossego nos negros das imagens. O tumulto entre uns e outros. Um filme magistral.
– Broken Blossoms (O Lírio Quebrado, 1919) – Segunda-feira, 16 de novembro, 20h30, Sala M. Félix Ribeiro. O mais famoso filme de D. W. Griffith ao lado de The Birth Of a Nation e Intolerance. Trocando a dimensão épica e espetacular dos primeiros por um lirismo exacerbado, Broken Blossoms tem uma rara intensidade emocional, sublinhada por uma atmosfera visual que fez história. Foi a primeira experiência para cinema do fotógrafo Hendrik Sartov, responsável pelos planos de imagens difusas que tornaram célebre a fotografia do filme. Três interpretações inesquecíveis dos protagonistas, Lillian Gish, Richard Barthelmess e Donald Crisp. Um retrato ímpar de um amor de luz de porcelana que suplanta o terror e a brutalidade no mundo de escuridão profunda.
– Diaries, Notes and Sketches: Walden (1969) – Terça-feira, 17 de novembro, 19h00, Sala M. Félix Ribeiro. Diaries, Notes and Sketches, também conhecido como Walden (referência ao manifesto poético de Henry David Thoreau), é o primeiro diário filmado de Jonas Mekas, em que o realizador, entretanto reconhecido como “o padrinho do cinema experimental americano”, regista, com a energia que lhe é caraterística, acontecimentos da sua vida ao longo de 4 anos. “Mantenho um diário filmado desde 1950. Ando com a minha Bolex de um lado para o outro e reajo à realidade imediata: situações, amigos, Nova Iorque, estações do ano. (…) Walden contém material de 1964-1968 montado em ordem cronológica”, explicou Mekas.
– Kauas Pilvet Karkaavat (Nuvens Passageiras, 1996) – Quarta-feira, 18 de novembro, 15h00, Sala M. Félix Ribeiro. Um dos pontos mais altos da arte de Aki Kaurismäki. A síntese entre o melodrama e o realismo social estilizado, que é a imagem de marca de Kaurismäki, é perfeita, abrindo caminho a uma nova dimensão no seu cinema. De entre as várias maravilhas deste filme, vale a pena chamar a atenção para a lindíssima fotografia a cores de Timo Salminen e para o “milagre” final, que transforma uma história de sucessivas frustrações numa fábula de final feliz à la Frank Capra.

– Heaven Can Wait (O Céu Pode Esperar, 1943) – Quinta-feira, 19 de novembro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. O penúltimo filme de Ernst Lubitsch e o seu único filme a cores (se excetuarmos That Lady In Ermine, que não completou por ter falecido uns meros 8 dias depois do início da rodagem), Heaven Can Wait é construído maioritariamente em flashback e tem vários aspetos testamentários. O tom é mais sereno do que de costume em Lubitsch: já não estamos na “comédia sofisticada”, embora o filme olhe com humor para o balanço da vida de um homem que morre e, à entrada do Inferno, conta a vida a Sua Excelência, o Diabo – da infância à velhice, foi um homem que nunca soube resistir aos encantos femininos. No fim do filme, Sua Excelência decide mandá-lo “para o andar de cima”. Uma das mais amargas despedidas deste mundo em que o riso progressivamente se vai gelando.
– Liebelei (Namorico, 1932) – Sábado, 21 de novembro, 10h30, Sala M. Félix Ribeiro. Último filme realizado por Max Ophuls na Alemanha antes do nazismo e uma das suas obras-primas absolutas. Adaptada de uma peça homónima de Schnitzler, esta dilacerante história de amores contrariados pelo destino é situada nos finais do século XIX, na Viena do imperador Francisco José. Tratando-se de Viena, as alusões à música são muitas: Schwesterlein é interpretada prodigiosamente por Magda Schneider, num dos mais sublimes momentos de cinema; a ação inicia-se durante uma récita de O Rapto do Serralho; e o “tema do destino” da Quinta Sinfonia de Beethoven acompanha o trágico desenlace. Toda a arte de um dos maiores realizadores de sempre está neste filme.

