O filme faz parte da Competição Portuguesa do IndieLisboa e tem sessões a 8 de maio e 10 de maio, ambas no Cinema São Jorge. O C7nema conversou com os cineastas estreantes Ana Baldini e Roly Witherow.
Duas amigas circulam por Lisboa durante um fim de semana. Estudantes de artes em Londres, Amandine (Marine Arradon) — francesa — exerce um poder quase hipnótico sobre Sofia (Anu Loureiro), a protagonista portuguesa. Em apenas dois dias na ensolarada capital, a relação entre ambas revela-se profundamente volátil, trazendo à superfície temas como o descompromisso, o narcisismo e a dificuldade de ocupar um lugar — sintomas de uma certa geração em suspenso. A evolução desse processo leva a um final surpreendente.
Ana Baldini e Roly Witherow, uma brasileira e um britânico radicados em Portugal, realizaram o filme praticamente sem apoios institucionais, depois de esperarem por aprovações que nunca chegaram. O resultado foi um processo que se estendeu por quatro anos, culminando num mês de rodagem intensa, em que os próprios cineastas assumiram múltiplas funções — do catering à condução.
O filme estreia mundialmente no IndieLisboa e ainda não tem distribuição comercial confirmada. O C7nema encontrou os realizadores na Culturgest para a conversa que segue.
O filme passa a ideia de movimento, a história desenvolve-se num fim de semana num cenário turístico…
Ana Baldini: Sim, acho que a relação entre elas — e com o lugar — é muito volátil. Interessa-nos essa mitologia interna que cada uma constrói e o papel do Outro dentro dela. No fundo, elas não estão realmente a relacionar-se — nem entre si, nem com as outras personagens, nem com o espaço. Cada uma está na sua bolha. O filme decorre ao longo de um fim de semana; Amandine está em Lisboa, mas podia estar em qualquer outro lugar.
Roly Witherow: Ela faz amizades e descarta-as rapidamente. Há essa natureza transitória — como o turismo, as pessoas que chegam e desaparecem.
O narcisismo, que é um elemento marcante da sociedade atual, é um ponto crucial.
Ana Baldini: Isso está muito presente. O narcisismo, alimentado pelas redes sociais e pelo consumo de imagens. A Amandine é mais manipuladora; a Sofia parece não saber quem é sem ela. É uma forma de lidar com um vazio.
Roly Witherow: Não é apenas geracional. Existe algo quase infantil em todos nós — impulsos que nem sempre compreendemos.
Isso parece abranger as personagens em geral — há tatuagens, festas, “charros”, “arte”, mas ninguém parece muito comprometido com nada. Veem isso como uma conquista ou um sintoma?
Ana Baldini: Mais como um sintoma. É melhor quando as coisas não são assim. Há uma aversão ao compromisso — como no caso do Guilherme, cuja arte é quase preguiçosa. Está mais interessado na ideia de ser artista do que em confrontar o que isso implica. É um sintoma de um certo meio — uma bolha da qual também fizemos parte. Estudei artes em Londres e reconheço essa flutuação constante.
Como se fossem turistas na própria vida…
Roly Witherow: Exato. Não sabemos se Amandine acredita realmente nas histórias que conta — como a ideia de criar uma galeria em Londres. E, quando se diz adepta de causas sociais, talvez esteja apenas a apropriar-se de um discurso para avançar.
Ana Baldini: Há uma tentativa constante de capitalização.
Como foi a escolha de Marine Arradon?
Ana Baldini: Criámos um site para encontrar atrizes francesas. Foi um processo longo, com cerca de um ano de ensaios.
Roly Witherow: O sotaque era importante. Se fossem ambas portuguesas, provavelmente não falariam em inglês e também nos interessava essa ideia de não pertença.
Foi uma produção sem apoios e nos créditos assinam várias funções…
Ana Baldini: Tentámos obter financiamento, mas a indústria é pequena e difícil de penetrar — sobretudo para as primeiras longas. Chegámos a um ponto em que já não podíamos esperar.
Roly Witherow: Conseguimos equipamento graças a um contacto inesperado no meio do cinema — alguém ligado a uma grande empresa, a Cinemate. Eles entraram como parceiros e cederam o equipamento.
Ana Baldini: Foi uma sorte enorme. De resto, fizemos tudo — inclusive o catering.
Roly Witherow: E como motoristas. Ninguém sabia conduzir! Trabalhámos muitas horas por dia!
Ana Baldini: Filmámos com uma câmara de documentário, emprestada por um diretor de fotografia amigo nosso. Depois tivemos uma excelente colorista.
Roly Witherow: As filmagens duraram um mês: duas semanas de interiores, duas de exteriores — e ainda voltámos a filmar algumas cenas ao longo de um ano.
Estão prontos para encarar uma nova aventura nesse estilo?
Ana Baldini: Na verdade, já estamos dentro de outro projeto.
Roly Witherow: Chama-se Gil Vicente, o Sapo e o Jumento. É uma comédia ácida, com subtons eróticos, centrada num triângulo amoroso entre entusiastas de Gil Vicente. É muito diferente — mais surreal.
Ana Baldini: Um exercício de world-building.

