Sustentando-se primordialmente na rotina de um serial killer mascarado que caminha lentamente pela floresta à procura de vítimas, “In a Violent Nature” (Natureza Violenta), de Chris Nash, nunca consegue sustentar a sua caixa de truques e gímnica pseudo-minimalista durante os seus 94 minutos de duração. É que aquilo que parecia inicialmente uma desconstrução do género slasher, dos seus códigos e fetiches, num ato de retirar espetacularidade pop a um festival de carnificina – popularizado por franquias como “Sexta-Feira 13” e “Halloween”- acaba por entediar mais que cativar, especialmente quando o filme entra em modo de repetição para poder encaixar-se na casa dos 90 minutos, o que também é por si só um clichê do género que o cineasta não quis mexer.

Talvez a “caixa de truques” que Nash usou pudesse realmente trazer um novo clássico do género se tudo fosse moldado a uma duração inferior, evitando-se gorduras e gorduras de um guião que tem no terço final tem o seu ponto mais alto de aborrecimento. Mas, ainda assim, o pior é quando percebemos que este suposto ato de “despectacularizar” é apenas uma forma de criar também ele um espetáculo, onde não se sai efetivamente da cultura pop, mas requisita-se uma linguagem de videojogo profundamente assente no modelo “terceira pessoa”, onde o espectador vê a personagem principal sob o olhar de uma câmara de filmar nas suas costas. 

Tudo começa quando, numa floresta, um par de personagens leva de um local, onde supostamente houve um massacre, um velho colar, despertando com esse ato uma criatura que se ergue dos solos e começa a caminhar em direção à matança. Nítida a homenagem a Sexta-Feira 13 e a Jason Voorhees, o filme começa logo a dizer ao que vem, usando no som (preferência pelas sonoridades naturais ao invés de recorrer à banda-sonora) e no requisito de planos longos, ao invés de curtos, assim eliminando a ideia de frenético e reduzindo a zero os apelidados jump scares

Progressivamente, o filme avança na contagem dos mortos e, nesse caminhar do assassino, não faltam toques de contemplação e paragens para descansar entre as carnificinas, as quais, quando surgem, ainda assim envolvem elementos cada vez mais macabros e “criativos”. 

Se os primeiros trinta minutos do filme funcionam como uma espécie de fatias de gengibre numa mesa de sushi, como que para nos fazer transitar (entre sabores) de um modelo a que nos habituamos no universo dos slashers e dos seus clichés, para um prato diferente que procura sistematicamente o “anti-clímax”, rapidamente o que se segue revela-se tão sensaborão que paramos de apreciar o prato cinematográfico que nos enfiaram pela goela. Mas como ainda temos mais de metade do filme pela frente, resta-nos seguir este passeio nas costas do serial killer, com o imprevisível a tornar-se previsível e tudo o resto redundante e repetitivo.

Mantendo assim as ideias chaves dos slashers, onde um grupo de jovens no meio da floresta é um alvo a abater por uma criatura quase sobrenatural, que sempre recorre a uma violência exagerada, mas entregue agora sob a “aura” do minimalismo, “In a Violent Nature” revela ser apenas um exercício de estilo diferenciado, que pode agradar pela tentativa de inverter as lógicas económicas da espetacularidade pop, mas que no final aborrece tantos com os seus anti-procedimentos, como a maiorias dos slashers que nos são entregues sazonalmente como supostos atos de homenagem ao género, mas que no fundo são reciclagens ou remixes de formas e conteúdos com meras ambições no mercado.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
natureza-violenta-videogame-killed-the-serial-killer-star “In a Violent Nature” revela ser apenas um exercício de estilo diferenciado, que pode agradar pela tentativa de inverter as lógicas económicas da espetacularidade pop, mas que no final aborrece tantos com os seus anti-procedimentos, como a maiorias dos slashers que nos são entregues sazonalmente como supostos atos de homenagem ao género