‘The Living’, o documentário do homem que sabia demais…

(Fotos: Divulgação)

O termo Holodomor não desperta em nós nenhuma reacção. Aliás, grande parte das pessoas que estão a ler este artigo devem estar a pensar que me estou a referir a mais um filme obscuro que decidi falar não sei bem porquê.

O certo é que se falarem com um ucraniano esse termo é imediatamente reconhecido, temido e marcado na sua herança genética.

Não tem importância não saber o que significa o termo, há 80 anos atrás, e mesmo falando do assunto, a maioria dos países ocidentais também achou irrelevante o que se passava. O resultado? Um verdadeiro genocídio, perpetrado por Estaline e a sua União das Repúblicas Socialistas Soviéticas contra o povo ucraniano, cujo único erro foi não ter conseguido a independência logo após a 1ª Guerra Mundial, permitindo assim a subjugação ao Império Bolchevique.

O jornalista britânico Gareth Jones, também conhecido como “O Homem que sabia demais”, foi uma das testemunhas vivas desse genocídio. Entre 1932 e 1933, ele revelou ao mundo através de alguns artigos o verdadeiro horror da fome que matava milhões na Ucrânia. E fê-lo, não só mostrando o drama do problema como, revelando o total falhanço criminoso de Estaline em resolver a questão, mesmo continuando a União Soviética a exportar cereais para todo o mundo ocidental.

Dois anos depois, naquilo que a família do jornalista define como a vingança do regime soviético, Gareth foi encontrado morto na Mongólia, aparentemente por bandidos chineses que atacavam na região.

O certo é que a sua vida tem sido definida pela sua antiga universidade, Cambridge, como uma vida de herói, e os seus actos estão agora filmados num novo documentário chamado “The Living”, que baseia muito da sua energética e triste história nos diários do próprio jornalista.

Realizado com o apoio de organizações não governamentais, este trabalho de Sergiy Bukovsky vai encontrar muitos dos sobreviventes desse período, pessoas essas que não têm qualquer pejo em afirmar que a sua geração “nunca devia ter nascido”, ou que apenas “esperam a morte”.

Estas são as pessoas que foram expulsas das suas terras, forçadas a trabalhar como escravas de um exército bolchevique pseudo-marxista. E os depoimentos – de como essas pessoas sobreviveram sem qualquer fonte de alimento, terra e condenadas pela União Soviética à miséria – são um foco de imensurável valor, exposto neste documentário.

Entre os narradores encontramos Viktor Yushchenko, presidente da Ucrânia. Nós vêmo-lo no memorial às vitimas do Holodomor na sua terra natal, Khuruzhivka.

“The Living” tem ainda uma outra característica muito interessante. Ele não se resume a contar a história, mas liga-a a diversos eventos dos anos 30, como o colapso da economia nos EUA, a ascensão de Hitler na Alemanha e a Guerra de Estaline com os defensores da propriedade privada, homens esses que só tinham duas hipóteses: aceitar a derrota ou a morte.

Para além de Gareth Jones, que tantas vezes foi censurado em artigos de jornalistas sediados em Moscovo, como Walter Durrent do New York Times, houve outro repórter que falou da situação. Malcom Muggeridge escreveu três peças para o Manchester Guardian sobre o o Holdomor, mas os seus artigos foram compulsivamente “cortados” e não repletos de liberdade total.

Se há vidas que dariam certamente um filme, são estas. Para terem a noção da riquíssima vida de Gareth Jones, basta dizer que uma vez ele esteve sentado num avião de 16 lugares com o novo chanceler alemão, um tal de Adolf Hitler, e com Joseph Goebbels. Posteriormente, este homem escreve que, se esse avião por acaso tem caído a história do mundo tinha sido completamente diferente.
Após esses artigos, Jones foi proibido de entrar na URSS, viajando então para o Oriente, tentando saber um pouco mais dos planos dos japoneses para a região.

O seu rasto é perdido na Mongólia. A razão, já sabemos.

Holdomor na Wikipédia

Holodomor ou Golodomor (em ucraniano: Голодомор) é o nome atribuído à fome de carácter genocidário, que devastou principalmente o território da República Socialista Soviética da Ucrânia (integrada na URSS), durante os anos de 1932 – 1933. Este acontecimento — também conhecido por Grande Fome da Ucrânia — representou um dos mais trágicos capítulos da História da Ucrânia, devido ao enorme custo em vidas humanas. Apesar de esta fome ter igualmente afectado outras regiões da URSS, o termo Holodomor é aplicado especificamente aos factos ocorridos nos territórios com população de etnia ucraniana: a Ucrânia e a região de Kuban, no Cáucaso do Norte.

Como tal, é por vezes designado de “Genocídio Ucraniano” ou “Holocausto Ucraniano”, significando que essa tragédia seria resultante de uma acção deliberada de extermínio, desencadeada pelo regime soviético, visando especificamente o povo ucraniano, enquanto entidade socio-étnica.

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Jorge Pereira

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