No coração de um país marcado por crises, guerras e uma instabilidade quase constante, Myriam Sassine e Georges Schouker ergueram-se como marcas autorais do cinema independente libanês. Fundadores da Aboot Productions, os dois produziram filmes que percorreram os grandes festivais do mundo — de Veneza a Berlim, de Toronto a Locarno —, construíndo um ecossistema cultural capaz de resistir à destruição, à censura e ao esquecimento.
Foi por isso que a dupla foi coroada com o prémio Raimondo Rezzonico de produção pelo Festival de Locarno, um reconhecimento que consagra não apenas a carreira, mas uma espécie de missão: contar histórias do Líbano, mesmo quando isso parece impossível.
Nascida num vilarejo sem salas de cinema, onde o acesso ao mundo do filme era uma raridade, o cinema chegou até Myriam através do pai, cinéfilo apaixonado, quem lhe abriu as portas do cinema através de cassetes VHS. “Para mim, o cinema era uma recompensa por ser uma boa rapariga”, recordou numa conversa no Festival de Locarno. Mas quando anunciou que queria fazer cinema como profissão, ouviu: “Isso é um hobby, não podes viver disso.” Seguiu em frente e, no documentário Dancing on the Edge of a Volcano (2023), que retrata as dificuldades de filmar Costa Brava (2021), a certo momento dispara com humor e dor: “Maldita a hora em que decidi fazer cinema” – frase que se tornou símbolo de uma luta diária contra o desalento, especialmente durante as filmagens de Costa Brava, marcadas pelo confinamento da pandemia e pela explosão do porto de Beirute em 2020.

Georges Schouker, por seu lado, cresceu em Beirute, entre abrigos e bombardeamentos. “O cinema salvou-me”, diz. Enquanto a cidade ardia, ele refugiava-se em filmes — chegou a ver cinco por dia. Apesar de ter estudado Direito, nunca conseguiu abandonar a paixão. Quando assumiu a Aboot, em 2005, herdando uma produtora quase inexistente, viu ali uma oportunidade: “Compor esse mecanismo, estruturá-lo, passar de algo amador a algo mais profissional.” Para ele, a produção tornou-se uma missão: “não só fazer filmes por amor ao cinema, mas também transmitir histórias, falar de nós mesmos. Isso era importante”.
Juntos, Myriam e Georges transformaram a Aboot numa verdadeira casa criativa. “Não é só a Aboot Productions ou a Aboot Foundation — é a casa Aboot”, diz Myriam. O seu método é instintivo: “É uma mistura de realizadores que nos inspiram, temas importantes e uma forma diferente de contar.” Mas acima de tudo, é sobre pessoas. “São as pessoas e a sua personalidade que importam.”, afirma Georges. “Um realizador pode ter um bom argumento, mas pode destruí-lo durante as filmagens. São os encontros que contam.”
O seu papel vai muito além da produção. Criaram 3 salas de cinema no Metrópolis (destruídas na explosão de 2020, entretanto reconstruídas noutro espaço), uma distribuidora (MC Distribution) e o Maskoon Fantastic Film Festival, o único festival de género no mundo árabe. “Qual a razão para apenas termos dramas sociais? Por que não terror, ficção científica?”, questionaram. E criaram um espaço onde jovens cineastas se sentem autorizados a sonhar. “Na primeira edição, havia filmes feitos só para o festival. Foi uma libertação”, conta Myriam.
Fazer cinema no Líbano é, para eles, um ato político. “Toda a minha consciência política veio do cinema”, diz Myriam. Num país onde se prefere esquecer o passado, os filmes de Aboot são memória. “Contar é resistir”, resume. E como escreveu Paul Ricoeur, após a guerra civil falou-se de amnistia — mas muitos chamam-lhe amnésia. É contra essa amnésia que Myriam e Georges lutam.
O Festival de Locarno prossegue até dia 16 de agosto.

