O icónico actor e realizador Jackie Chan foi homenageado com grande entusiasmo no 78.º Festival de Cinema de Locarno, onde recebeu o prestigiado Pardo alla Carriera na emblemática Piazza Grande, na Suíça. A cerimónia, realizada numa noite de sábado, contou com uma recepção entusiástica de milhares de fãs que encheram uma praça com a lotação de aproximadamente 8 mil lugares.
“Buena Sera!”, disse Chan, cumprimentando o público em italiano. Visivelmente comovido, agradeceu ao festival, aos colegas e, especialmente, aos fãs: “É por causa de vocês que estou aqui hoje”.
Recordando uma pergunta que o pai lhe fez – se ainda conseguiria lutar aos 60 -, Chan afirmou que com 71 anos ainda consegue lutar.
Um dos rostos mais icónicos do século XX, Chan chegou a Locarno como uma lenda viva — não apenas um ator, mas como “um cineasta total”, uma figura que moldou o cinema de ação. Chan falou com a equipa do festival, numa conversa com a mesma energia que marcam os seus filmes: “Às vezes, quando recebo um prémio destes, fico simplesmente surpreendido (…) Vim a esta pequena cidade suíça e as pessoas gritam o meu nome. Em África, no meio do nada, após 16 horas de estrada, aparecem pessoas a chamarem por mim: ‘Jackie! Jackie!‘”. Essa ligação com o público, universal e emocional, é o seu maior orgulho. “Mas depois lembro-me que tudo isto começou porque, aos 20 anos, só queria fazer bons filmes.”
E foi esse desejo que o levou a passar três meses a filmar uma única cena de luta — como a lendária sequência de Drunken Master — para entregar ao público algo verdadeiro, algo real. “Queria dar-lhes emoção, não truques. Hoje há tantas regras, tantos seguros… Nos velhos tempos, não sabíamos o que era seguro. Apenas fazíamos. (…)Hoje temos apenas três dias para filmar uma grande luta. É preciso terminar dentro do orçamento e do prazo.“
A sua formação na China Drama Academy, desde os 7 anos, foi o alicerce de tudo. Levantava-se às 5h30 da manhã, corria, treinava milhares de golpes, aguentava castigos físicos severos. “Aprendi a suportar a dor“, disse. E essa disciplina acompanhou-o para sempre: partiu o tornozelo de manhã e filmou à tarde; quebrou a mão e continuou a filmar. “Era assim.“

Foi essa determinação que o levou a querer assumir o controle criativo dos projetos em que se envolveu. “Via os realizadores a quererem ir rápido, rápido, rápido… e pensava: isto não faz sentido.” Até que, num momento de ruptura, abandonou um set onde sentia que o seu trabalho estava a ser desvalorizado. “Disse: ‘Se continuarem assim, vão arruinar a minha carreira.’” Foi aí que nasceu o realizador Jackie Chan. Os seus primeiros filmes atrás e à frente das câmaras— Snake in the Eagle’s Shadow, Drunken Master, The Young Master — quebraram recordes de bilheteira em Hong Kong.
Nas suas cenas de luta, não há apenas punhos e pés — há escadas, candeeiros, cadeiras, pratos, carrinhos de supermercado. Tudo se transforma em arma ou obstáculo. “Queria dar drama à luta. Porque é que estes homens se batem? Não pode ser só por olharem um para o outro!“.
Criticando o cinema de ação moderno, onde os heróis voam e tudo é feito com efeitos digitais, Chan diz: “Prefiro ver coisas reais a acontecer no ecrã. Claro, admiro Hollywood… Eles conseguem transformar qualquer um em super-herói…”
Em Project A, a queda do relógio — uma das cenas mais perigosas da história do cinema — é mais do que um feito físico: é uma homenagem silenciosa ao cinema mudo. “Os fãs japoneses disseram-me: ‘Tu és como Chaplin, como Keaton.’ Eu respondi: ‘Quem são eles?’” Na altura, mal tinha acesso à televisão, mas quando viu os filmes, ficou maravilhado. “Percebi que faziam truques — tinham colchões, enganos. Eu não. Eu caía mesmo. E agora, se me pedissem para repetir, não conseguiria. O corpo não permite.”
A sua carreira é também uma história de amizade e respeito. Por isso, falar de Sammo Hung e Yuen Biao é falar de irmãos. “Trato o Sammo como um irmão mais velho. Quando o vejo, levanto-me e cumprimento — é a cultura chinesa.” E ainda sonha fazer um último filme com Sammo, agora já perto dos 80 anos. “Seria um sonho. Um adeus ao cinema como nós o entendemos.“
“Quando morrer, quero que as próximas gerações digam: há Bruce Lee, há Chaplin, há Jackie Chan.“, disse, não por vaidade, mas por legado. Porque Chan acredita que os filmes que resistem ao tempo são os feitos com suor, dor e amor. “Nunca sejam preguiçosos“, aconselha aos jovens cineastas. “Mesmo que o filme não seja bom, façam o que for preciso.“, relembrando que apenas ele e Sammo Hung foram “cineastas totais” na Ásia: “Argumento, representação, realização, coordenação de duplos, montagem; tudo. O primeiro foi o Sammo Hung. O segundo, Jackie Chan“.
Além da exibição no festival de “Project A” (1983) e “Police Story” (1985), ambos realizados e protagonizados por si, Jackie Chan vai participar numa conversa com o público este domingo, 10 de agosto.

