Um ano antes de fazer a terceira obra de sua trilogia de Marselha (Marius; Fanny; César), Marcel Pagnol fez em 1935 um filme que foi esquecido por muitos e que andou mesmo desaparecido durante anos devido à escassez de cópias. Falamos de “Merlusse” (1935), que inspirou profundamente Alexander Payne no seu último projeto, “Os Excluídos” (The Holdovers). Passado no colégio Thiers, em Marselha, o filme segue um conjunto de crianças que, na ausência de família para passar o natal, ficam no colégio sob a vigia de Sr. Blanchard, um homem com longas barbas a lembrar Rasputin e com uma cicatriz na vista que faz com que as crianças o abominam, apelidando-o de Merlusse “pois cheira a bacalhau“.
Exibido no Festival de Cannes na secção Classics, sob a presença de figuras como Costa-Gavras (realizador e presidente da Cinemateca Francesa), Nicolas Pagnol (neto de Marcel Pagnol) e Frédéric Bonnaud (da Cinemateca Francesa, além de Thierry Fremaux, “Merlusse” foi restaurado em 4K e vai começar um percurso global de exibições. “Godard falava de um bando de quatro sobre aqueles que fizeram qualquer coisa pelo cinema. Jean Cocteau, importantíssimo para a Nouvelle Vague, Sacha Guitry, Marguerite Duras e Marcel Pagnol”, disse Frédéric Bonnaud, na apresentação da sessão ao muito público que preencheu a sala Buñuel no Palais des Festivals. “Merlusse é o primeiro guião original escrito por Marcel Pagnol para o cinema. Este filme é sua quarta produção e marca sua segunda colaboração com Henri Poupon, que interpreta a personagem do Merlusse. Acho que ele realmente se importou com este filme, porque não foi coincidência que escolheu o colégio Thiers, em Marselha, como cenário. Ele estudou lá com o seu amigo de infância Albert Cohen, e o colégio é realmente uma personagem à parte no filme.“, disse Nicolas Pagnol em Cannes.

Falecido em 1974, Marcel Pagnol foi ainda recordado no Festival de Cannes através da exibição da nova animação de Sylvain Chomet, o realizador de clássicos como “Les triplettes de Belleville” e “L’illusionniste”. Com o nome “Marcel et Monsieur Pagnol”, a animação faz um retrato do dramaturgo e cineasta francês, da infância ao seu sucesso nos palcos e nos sets, não esquecendo os tempos de ocupação nazi e da necessidade vender o seu estúdio de cinema, que tinha criado em Marselha, à Gaumont.
“A minha primeira conexão com Marcel Pagnol foi quando tinha 9 ou 10 anos”, disse Sylvain Chomet ao C7nema, numa entrevista em Cannes. “Na escola tínhamos de estudar o seu trabalho (“La Gloire de mon Père”; “Le Château de ma mère”). Senti que ele falava comigo. Depois vi os seus filmes, mas nem fiz a conexão entre o realizador e o autor que tinha lido em criança. Ele só começou a escrever livros aos 61 anos. Antes disse apenas tinha encenado peças e realizado filmes”.
O Festival de Cannes prossegue até 24 de maio.

