Muito antes de Simone de Beauvoir publicar o “Segundo Sexo”, o Festival de Cannes era invadido por eventos paralelos que certamente nos dias que correm não seriam tão bem aceites. Por exemplo, existiam 2 concursos de “misses” e as Startlets, jovens atrizes que invadiam a cidade do sul de França em busca de fama rápida, usando manobras mais ou menos arriscadas de exposição corporal nas praias locais, eram comuns.
Ainda recentemente, durante o habitual momento na passadeira vermelha do Festival de Cannes da equipa de “Mapa para as Estrelas” (2014) de David Cronenberg, uma mulher semi nua, coberta apenas com uma fita adesiva no corpo, invadiu o local, atraindo a atenção dos flashes e levando a imprensa a mundial a comentar o “feito”. A moda de usar o Festival de Cannes como local prodigioso para dar nas vistas vem de há mais de 70 anos e um dos maiores escândalos que o certame já viveu envolvia uma situação de topless, estávamos então em 1954.
Simone Silva foi uma atriz francesa de origem egípcia que fez uma curta carreira em alguns filmes B britânicos nos anos 50. Um dos seus motes de vida é que seria capaz de fazer qualquer coisa para chegar às capas dos jornais, o que realmente conseguiu em 1954, na 7ª edição do Festival de Cannes. Convém dizer que quando chegou à cidade do sul de França a atriz descobriu que a organização a ia premiar com o título honorário de “Miss Festival 1954“. Por causa disso, foi convidada para posar em fotografias com o ator Robert Mitchum numa praia da Riviera Francesa, perto de Cannes. O photocall virou marco histórico quando depois de incentivada pelos fotógrafos, Silva tirou o top e colocou apenas as suas mãos a tapar os seios.

Robert Mitchum alinhou na situação e as fotografias tornaram-se clássicas. Rezam as crónicas que a azáfama dos jornalistas foi tal que um deles partiu uma perna e outro um braço. Mas se a imprensa adorou o momento e as fotografias foram publicadas em todo o mundo, a comissão organizadora do festival mostrou-se horrorizada com o golpe publicitário vulgar, convidado posteriormente Silva a deixar o festival.
Silva recordou mais tarde que pensou que seria bom para a sua carreira ser fotografada com Mitchum daquela maneira. As pessoas não pensavam assim e Mitchum e Silva foram denunciados pelos códigos morais restritivos do cinema. O Congresso americano chegou mesmo a debater a permissão dos filmes americanos serem promovidos em Cannes.
A história de Simone Silva não teve um final feliz já que em 1957, quando tinha apenas 29 anos, faleceu. Há relatos de possível suicídio, outros apontam para um AVC e outros ainda como consequência de uma dieta extrema.
Antes disso, e imediatamente após o sucesso das fotos no Festival de Cannes em 1954, a atriz tentou entrar nos EUA e aí fazer carreira, mas o seu visto de entrada no país foi negado e, depois de algumas idas ao tribunal, acabaria por sair dos “states” em 1955. O seu destino foi Inglaterra, onde participou em alguns filmes, mas derradeiramente nunca chegou a ter a fama que desejou.
Quanto a Robert Mitchum, o escândalo de topless aumentou a sua popularidade, passando a ser frequentemente escalado como o herói, bem macho, dos principais símbolos sexuais na sua época, atuando com nomes como Marilyn Monroe (River of No Return) e Rita Hayworth (Fire Bellow).

