Numa única frase – “O dinheiro é a única verdade que baliza tudo” – “Walk Up” justifica ao que veio, na sua aguardada passagem pela disputa da Concha de Ouro de 2022, e expõe uma rota mais política na obra do incansável sul-coreano Hong Sang-soo. Minutos antes da sua projeção, um casal dizia: “É o filme que mais esperamos de todo o programa de San Sebastián“. A espera foi (muito bem) atendida, a julgar pelo esplendor dos enquadramentos estáticos (como longos planos sequência) e pela atuação de Kwon Haehyo, vivendo uma espécie de alter ego do realizador de jóias como “HaHaHa” (Prix Un Certain Regard de 2010).
Kwon vive um realizador de cinema de prestígio que tem na filha e num carro antigo os prazeres da sua vida, pautada por uma feroz certeza estética: jamais filmar o que o mercado quer. Ele está num momento de pausa no seu processo de criação, dedicando-se a ser um pai dedicado. A boémia e os múltiplos amores do seu passado prejudicaram essa sua função familiar, mas ele quer mudar.
Por isso, pede a uma amiga (ou algo mais), que é designer, uma tutoria de trabalho para a sua filha. Desse pedido em diante, a personagem de Kown vai encarar uma maratona de conversas, à moda Sang-soo, com a câmara sempre estática (desta vez sem zoom) a ouvi-lo falar e a deixá-lo ouvir. Serão diálogos sobre mudanças de planos; sobre arte; sobre querer; sobre o modo ideal de mastigar carne e tofu; e sobre deixar de ser amado. Isso, ele não sabe. Revezando-se em variadas funções no set (no guião, na operação de som, na montagem e na realização), Sang–soo radiografa a figura arquitetada por Kown até a medula, deixando-o se desvelar diante de nós até ao limite dos seus medos.
Nas longas-metragens de Sang-soo, as pessoas encontram-se, bebem e falam sem parar sobre as coisas simples da vida. E, de simplicidade em simplicidade, ele monta uma espécie de Comédia Humana a partir dos nossos sentimentos mais alquebrados. Há outro factor de atração, cada vez mais ausente nos ecrãs, dada a patrulha da correcção política: o tabaco. Fuma-se muito ao longo do seu trabalho. A cada baforada surge um desabafo, um elogio, uma sequela de uma solidão que parece não caber no peito.
Classificado por alguns como mestre e por alguns como um repetidor de rizomas, que faz equações matemáticas e não filmes, Sangsoo confirmou a fase de bonança do seu país nos cinemas, em 2020, vinte dias depois de a Coreia do Sul ter levado quatro Oscars para casa, apoiado na engenharia narrativa de Bong Joon-Ho e seu “Parasite”. Em “Walk Up”, uma história construída nos trópicos de uma trivialidade aparente, o realizador inventaria as angústias passionais de quem usa o cinema como um instrumento de transcendência.


















