(Infelizmente) destinado a passar ao lado das luzes da ribalta, como se viu na sua exibição na Quinzena dos Realizadores em Cannes (2022), ou agora na sua estreia comercial em Portugal (numa silly season onde “Oppenheimer” e “Barbie” polarizam atenções), “Falcon Lake” é uma das pedras preciosas mais reluzentes desta época estival nos nossos cinemas, mostrando que a canadiana Charlotte Le Bon, na realização da sua primeira longa-metragem de ficção, consegue com enorme sutileza mostrar esse estado febril de transição chamamos adolescência.
E fá-lo através de duas personagens com uma considerável diferença de idades, para adolescentes, Bastien (13 anos) e Chloé (16 anos), que no jogo de afetos evocam, experimentando as suas primeiras emoções, diversos fantasmas (sem toques sobrenaturais), tudo à beira de um lago, assombrado por uma lenda de um afogamento.
Filmado em 16mm, o que esteticamente nivela e até embota o brilho e fulgor das paisagens de si impressionistas, e também suporta os estados de espírito em cena, agarrando assim o espectador aos corpos e emoções, “Falcon Lake” é livremente inspirado na história em quadrinhos “Un Soeur”, do polémico Bastien Vivès, que devido a outros trabalhos já chegou a ser ameaçado e foi vítima de uma petição que o acusava de pedófilia e ser defensor do incesto.
Na transição para guião e filme, Le Bon abandona a Bretanha à beira-mar e transpõe a história para o Quebec, mantendo na melancolia – “um amigo para a vida toda, contra a tristeza”, como disse a realizadora – a chama para mostrar os primeiros jogos sensuais e o nascer do desejo entre as duas figuras, sem nunca sexualizar em demasia as personagens e situações.
No final, e não se livrando de certas falhas que também conferem ao filme um encanto juvenil de alguém que começa um percurso na realização para cinema, Charlotte Le Bon oferece um delicado gesto, enorme na sensibilidade, com tanto de obscuro como de celeste.

















