Ao longo das múltiplas projeções comemorativas da versão restaurada do “Napoleon” de 1927, dos anos 1990 até hoje, uma frase do seu realizador, Abel Gance (1889-1981), serviu de farol aos artistas empenhados em tirar o audiovisual da subserviência histórica ao guião, na sua causalidade clássica. O tal aforismo: “O cinema é a mágica da luz”. Stanley Kubrick (1928-1999) almejou por muito tempo filmar a saga do combatente que via a França como o império destinado a ser o Sol do mundo. A tarefa acabou por ser apanhada por um realizador que, ao contrário da hipótese de Gance, costuma sempre seguir a cartilha da causa e efeito nos seus filmes. Ele faz sempre esse caminho, embora algumas das suas longas-metragens deslumbrem pela habilidade em exponenciar o requinte visual ao Infinito, seja nos sucessos (“Blade Runner”), seja nos fracassos (“Kingdom of Heaven”). Assim é Ridley Leighton Scott.

A ideia que ele, aos 85 anos, pudesse extrair um biopic plasticamente vivo e dramaturgicamente provocante, dos anais da Revolução Francesa e os seus desdobramentos, dividia opiniões e vai continuar a dividir. Contudo, a maneira sagaz com que o realizador manuseia uma fábrica de força incontrolável como Joaquin Phoenix para criar um Napoleão Bonaparte que mais parece o Michael Corleone mafioso de “The Godfather”, salva o seu épico bélico de caricaturas.

Fora isso, a exuberante engenharia de efeitos visuais (sobretudo nas cenas das salvas de canhões), aplicada à fotografia estonteante de Dariusz Wolski (de “Crimson Tide”), garante uma sensação de espetáculo único, no caminho da reconstituição de época.

The Duelists” (1977) e o recente “The Last Duel” (2021) já provavam que sir Ridley sabe contextualizar o passado da Europa como se fosse uma ópera rock, cheia de grandiloquência, valorizando zonas cinzentas de protagonistas com tom heroico. Ao mesmo tempo, filmes controversos como “Black Hawk Down” (2001) dão a medida da desenvoltura do cineasta para realizar batalhas sem as armadilhas do lugar comum hollywoodiano. Em “Napoleão”, o episódio da campanha francesa no Egito e a peleja contra o Duque de Wellington (numa interpretação luminosa de Rupert Everett) garantem ao filme a mais pura suculência no quesito da ação. Quem aplaudiu “Gladiador” (2000) – que é um Ridley Scott em estado de graça – vai se sentir em casa na França do alvorecer do século XIX.

No guião, por vezes hermético de David Scarpa (“The Man In The High Castle”), essa nação soa longe do sonho revolucionário ambicionado pela mobilização de 1789 aos olhos de Bonaparte, carcomida por uma nova burocracia. Como um líder mafioso, ele usa o populismo para trazer o afeto do povo para o seu lado, cativando as camadas populares com os seus feitos nos campos de batalha. Se alguém aí pensar em Donald Trump ou Jair Bolsonaro, livrem-se desses fantasmas rapidamente, pois Phoenix aprofunda as fragilidades no lado mais monstruoso de Napoleão de um modo que o ranço deixado pelos ex-presidentes não conseguiram no imaginário político. Mas, há ressonâncias. É, sim, um estudo rico sobre campanhas populistas, ainda que de espada em punho. Como dizia o cineasta Glauber Rocha (1939-1981): “Deus perdoa; a História, não”. Com o auxílio de Phoenix, cheio de existencialismo na sua composição, não perdoamos Napoleão, mas avançamos léguas na sua psique, num processo em que cada cena (sobretudo aquelas apoiadas no chiaroscuro, dos takes de Wolski) decifra a esfinge francesa.   

Essa psique era afeita a cálculos na frente de batalha. A estratégia de linha geométrica que Napoleão emprega no uso dos canhões faz dele um vencedor. Mas não se pode esperar uma carreira tão vitoriosa da estratégia que tenta usar na relação com a sua paixão de vida, Josephine (papel de Vanessa Kirby, sempre sagaz no domínio do melodrama), oscilando entre o sexismo bruto e o choramingar de miúdo mimado. O filme dilui o seu ensaio sociológico ao falar de amor a partir da relação conturbada entre ambos. Vanessa encontra para si um lugar de destaque e brilho.

Sem nunca menosprezar a relevância dela, Scarpa aproveita o desejo de Ridley para injetar humanismo nos contornos históricos de Bonaparte, tirando-o da inercia do herói conquistador ou vilão orgulhoso. É como o Corleone de Al Pacino: um combatente infalível que, em nome de um amor, não ao pai Dom Vito (Marlon Brando), mas à mãe, França, deixa-se tocar (e ser conspurcado) pela mácula do Poder. Josephine é a sua Kay (personagem de Diane Keaton) em “The Godfather”. O apelo do controle oxida a sua alma, mas não enferruja a sua sanha por sangue. Com ela, o próprio Ridley livra-se da ferrugem de exercícios recentes (como “Alien: Covenant” e “Casa Gucci”) e faz um dos seus filmes mais charmosos e profundos. E exercita o seu toque de autor na forma, embora não chegue a ser Abel Gance. Mas, quem chega?

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonesa
napoleao-esfinge-populista-num-filme-que-arrebata-o-olharUm estudo rico sobre campanhas populistas, ainda que de espada em punho.