Dos primeiros momentos em que descobrimos o sonho de Kazunori Yamauchi, o de fazer um simulador perfeito de uma corrida automobilística, até aos últimos em que assistimos à consagração de Jann Mardenborough (interpretado por Archie Madekwe), “Gran Turismo” é uma verdadeira máquina (bem oleada) do modelo cinematográfico “what you see is what you get“, sempre cimentado na cultura do “underdog” que, contra todas as expectativas, triunfa num ambiente que lhe é hostil.

Convenha-se perceber que  vivemos tempos em que histórias periféricas ligadas à criação de videojogos, como “Tetris”, deixam marca no cinema industrial, onde em vez de seguirmos atentamente a história do criador de “Gran Turismo”, seguimos antes a do homem que concretiza “materialmente” o seu sonho. E se em “Tetris” o foco estava em Henk Rogers (Taron Egerton), em “Gran Turismo” as lentes da câmara apontam a Jann Mardenborough, um gamer que depois de um concurso de simulação automobilística consegue a licença da FIA para competir realmente em corridas reais.

Todos os elementos da típica história do “underdog” estão lá, a começar nas preocupações familiares das escolhas do jovem em relação ao futuro, passando pelas paixonetas adolescentes, os treinos físicos intensos geridos por um treinador duro, mal-humorado, mas correto, e, claro, as rivalidades que vão surgindo com outros pilotos nas pistas reais. Pegando nestes elementos, que genericamente parecem feitas à medida do cinema mainstream, Archie Madekwe entrega uma prestação competente, oferecendo ao espectador uma personagem amigável e fácil de criar empatia no seu arco narrativo rumo ao sucesso. E nesse caminho. David Harbour (de “Stranger Things”) apela ao mentor clássicos, de rigidez “militar”, mas com devaneios pop para aligeirar o treino de um miúdo, sendo assim capaz de separar performance e qualidade de vetores económicos e propagandísticos, os quais cercam e movem a personagem interpretada por Orlando Bloom.

Habituado a lidar com outro tipo de máquinas, como vimos em “Chappie”, o sul-africano Neill Blomkamp (de “Distrito 9”) arregala os olhos dos fãs de “Gran Turismo” através de diversas artimanhas cinematográficas que repescam aspetos da jogabilidade do videojogo, dramatizando as cenas de corrida dentro do realismo e espetacularidade que se exige, sem nunca cair em excessos ou regras da física aulterados. Porém, é na dimensão humana da conquista de Jan que o filme se centra, jogando pitadas de humor frequentemente que açucaram a evolução dramática de uma personagem que, contra tudo e todos (pai, treinador, rivais), vai conseguir triunfar.

Nisto, habituado a ser bem mais arrojado, Neill Blomkamp prova saber jogar no campo do cinema industrial para toda a família, que se consome com ligeireza, transmite uma mensagem para os jovens (“nunca desistam dos sonhos”), e ainda vende uma série de produtos (o jogo “Gran Turismo“; a Nissan). Em suma: o sonho americano existe, mas desta vez é um britânico a vivê-lo.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
gran-turismo-wysiwygNeill Blomkamp prova saber jogar no campo do cinema industrial para toda a família, entregando um filme que se consome com ligeireza, transmite uma mensagem para os jovens (“nunca desistam dos sonhos”), e ainda vende uma série de produtos