Com carreiras já bem cimentadas no documentário, Ivan Ostrochovský (cujo “Koza” de 2015 recebeu menção honrosa no IndieLisboa) e Pavol Pekarčík (Silent Days, 2019) embarcaram para a Ucrânia em 2022, a meio da invasão russa, para captarem a vida dos habitantes de Kharkiv que, durante o dia e os intensos bombardeamentos, se refugiam na estação de metropolitano local, onde fazem a sua vida. Idosos, crianças e muitos animais de estimação transformam aquele não-lugar repleto de luzes artificiais na sua “casa”, conversando, dormindo, brincando ou simplesmente olhando em redor, com a certeza absoluta que ali ao menos estão mais protegidos que mais acima, junto à superfície.
Estreado num evento especial no Festival de Veneza, na barra paralela Giornate degli Autori, “Photofobia” (referência à condição em que a pessoa não consegue olhar diretamente para a luz ou ficar em ambientes claros) é essencialmente um objecto de observação humanitária, bem capturado sob a lente cinematográfica, das terríveis consequências da guerra numa comunidade atacada pelo terror, estando nas crianças, na sua dificuldade em perceber porque já não podem brincar como antes nos parques infantis à superfície, o elemento de maior comoção.
E à medida que o tempo passa, principalmente os jovens começam a apresentar sintomas de depressão e apatia, necessitando de cuidados médicos e psicológicos atentos, além da constante contextualização da situação, por parte dos pais, que não entram em eufemismos adocicados sobre o que está acontecer como Begnini o fazia na sua “A Vida A Bela”.
Mas ainda assim, no meio do terror e depressão de se verem alocados num espaço nada natural para sobreviver ao conflito, a dupla de cineastas, que há uma década colaborou em “Velvet Terrorists”, consegue mostrar as grandes virtudes da condição humana, a cimentação de vínculos comunitários, e momentos de humor e amor no meio da tragédia. Introduzindo, no meio das suas capturas quotidianas pequenos trechos em Super 8mm, com imagens da devastação que ocorre “lá em cima”, Ostrochovský e Pekarčík mostram uma alternativa ainda mais dolorosa a todos os que sofrem vários palmos abaixo do chão.
E ao fazer isso documentam um lado ímpar da guerra, cujos efeitos vão até bem longe das trincheiras e frentes de guerra, além de ser certo que vão perdurar durante muitas décadas na mente e corpo de todos os que vislumbramos em cena.


















