Notes of a True Criminal: quatro gerações marcadas pela guerra

(Fotos: Divulgação)

Após 31 anos sem realizar um documentário, Alexander Rodnyansky regressa com Zapiski Nastoyashego Prestupnika (Notes Of A True Criminal), um projeto – correalizado por Andriy Alferov – que parte de memórias pessoais e arquivos familiares para olhar a história recente da Ucrânia e o seu impacto em quatro gerações. Embora atravesse vários factos históricos — como o referendo da independência, o massacre de Babi Yar e a tentativa soviética de apagar essa memória, Chernobyl, o colapso da URSS, a retirada das tropas soviéticas da Alemanha e, por fim, a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, iniciada a 24 de fevereiro de 2022 —, o filme não se foca neles, mas sim nas pessoas, nos destinos e na arte.

Este filme começou há muitos anos. Eu era documentarista e o meu último trabalho, de 1994 — há 31 anos —, chamava-se, de forma hoje prematura, Adeus, URSS”, disse Rodnyansky à imprensa em Veneza, onde o seu filme estreou fora de competição. “Prematura porque vemos a URSS a desfazer-se agora, de forma sangrenta, com a guerra na nossa Ucrânia. Ao filmar então as ruínas desse império, registei uma cena que nunca mais esqueci: soldados soviéticos a viver na Alemanha. Olhava as suas caras e perguntava-me se regressavam de uma guerra ou iam para outra. Em 1994 ainda eram cidadãos do mesmo país, serviam o mesmo exército, mas regressavam a países recém-nascidos já em conflito. Quando começou a guerra russo-ucraniana, essa pergunta voltou. Decidimos ligar o que se passa hoje ao que filmei no fim dos anos 80/início dos 90, ao que a minha família filmou na Segunda Guerra e ao que o meu mentor rodou. Não um filme ‘sobre a guerra’, mas sobre pessoas, história e gerações cujos destinos se cruzam com a história dos nossos países. Demorou 30 anos… e uns dias.

Descrevendo o Notes Of A True Criminal como distante de qualquer disputa partidária — até porque já existem muitos objetos cinematográficos assim —, Alexander explica que se ancorou para o seu documentário na dimensão humana e em como a guerra moldou histórias pessoais. “Acredito que um relato honesto permite a identificação e, talvez, alguma mudança de perceção. Não é para culpar. Sabemos quem é o agressor. Tentámos antes mostrar como sobreviver e preservar a condição humana em tempos difíceis.”

Explicando que tudo começou como a construção de um diário íntimo, sem plano de distribuição, o cineasta diz que pensou fazer um registo para ser visto daqui a 30, 40, 50 anos. “Depois, quando o filme ganhou forma, decidimos testá-lo com público”, afirma, acrescentando que não divide o filme por geografia, mas por estado emocional e pela forma como cada um entende e trata a guerra e imagina o futuro: “Se o futuro for construído só no ódio, não haverá futuro. Para mim, o filme fala também da maldição das guerras sem fim — quatro gerações da minha família aparecem e todas foram tocadas. O cinema não muda a História nem transforma maus em bons, mas pode dar um sinal aos bons e dizer que não estão sozinhos.

Quanto à opção de o documentário não ser guiado por uma estrutura narrativa clássica e linear, o cineasta diz que o foco foi construir uma história emocional que ligasse episódios diferentes, tudo para mostrar que o que acontece hoje começou há muito tempo — e não vai acabar com um cessar-fogo. “No fundo, questiona o que há em nós, humanos. Por isso quis um contexto mais amplo. É um filme facilmente legível em países com passados semelhantes ou conflitos atuais — nacionais, étnicos ou religiosos.”

Vale a pena referir que o cineasta escolheu o nome Notes Of A True Criminal pelo facto de, aos olhos das autoridades russas, ser agora considerado um criminoso: no ano passado, um tribunal de Moscovo condenou-o à revelia a oito anos e meio de prisão por difundir posições anti-guerra.

O Festival de Veneza termina a 6 de setembro.

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