Londrino da região de Paddington, onde nasceu em 1971, Matthew Allard de Vere Drummond Vaughn começou a sua carreira nos cinemas no ofício de produtor, em 1995, com “The Innocent Sleep“, revelando uma vaga pop britânica com estética de videoclipe, da qual Guy Ritchie foi a maior estrela. Os dois se notabilizaram, em parceria, com “Lock, Stock and Two Smoking Barrels“, em 1998, e foram fazer “Snatch” seguidamente. A presença de Ritchie no currículo e na estética de Vaughn é (positivamente) contagiosa, a se julgar pelo frenesim que rege o seu novo e divertidíssimo filme: o thriller “Agylle: O Superespião“. É, como tudo o que Vaugh faz, uma mistura aparente de Ritchie com Wolfgang Petersen, o realizador de “Air Force One” (1997) e “Troy” (2004).
Vaughn une a histeria de Ritchie com a esfera fabular de Petersen (uma das grandes influências do cinema pipoca europeu dos anos 1980 e 90) na formatação de narrativas de cortes ágeis e reviravoltas contínuas, nas quais arranja sempre maneira de explorar as inquietudes existenciais das personagens. Já era assim em “Layer Cake“, de 2004; na adaptação impecável da BD “Kick-Ass”, lançada em 2010; e na franquia baseada na banda desenhada do mesmo autor: “Kingsman“. A estrutura narrativa de edições velozes (nunca bruscas) desses títulos está em “Argylle“, de modo a estabelecer uma unidade autoral formal.
Estruturado numa trama que evoca o sucesso “Romancing the Stone“(1984), “Argylle” é uma superprodução de orçamento altíssimo para o padrão Vaughn, com o apoio da Apple nos custos de 200 milhões de dólares. As ideias do guião escrito por Jason Fuchs jogam com a metalinguagem (até certo ponto, numa curva dramatúrgica digna de M. Night Shyamalan) numa linhagem mercadológica que Hollywood chama de “eye candy“. Este ó nome que a indústria passou a usar a partir dos anos 1970, em filmes como “Earthquake” e “The Towering Inferno” (ambos de 1974), na qual um elenco cheio de celebridades se une a uma equipa de intérpretes de prestígio que raramente se engaja em filmes de ambição comercial mais explícita. Foi o que se viu nos anos 1990, em “Con Air” (1997), de Simon West, na década de 2000 em “2012“, de Roland Emmerich.

Apoiado numa verba das mais robustas, Vaughn dedicou-se a “Argylle” a partir de 2021, com tempo para reunir Dua Lipa, a oscarizada Ariana DeBose, Richard E. Grant, Samuel L. Jackson, Bryan Cranston, John Cena e uma inspirada Catherine O’Hara. É um grupo que parece improvável para uma fita que parece um videojogo. Mais improvável ainda é esperar que uma dupla de forte faísca afetiva a ser formada por Sam Rockwell e Bryce Dallas Howard funcione. Mas funciona. Muito. Henry Cavill funciona mais ainda no papel de um James Bond imaginário.
No enredo, a escritora Elly Conway (vivida por Bryce com muito humor) forma um séquito de fãs com os best-sellers do espião Argylle, vivido por Cavill. Mas ao iniciar um novo livro, ela passa por um bloqueio criativo e lança-se numa viagem de comboio para reaver o fio da inspiração. No trajeto, cruza com um sujeito misterioso, Aidan (Sam Rockwell, brilhante em cena), que salva a sua pele e o seu gato de um ataque de agentes armados. O tal grupo opera sob a liderança feroz de um executivo engravatado vivido por Cranston. O cerco deles põe Elly a correr o mundo, numa rota de fuga digna dos romances que escreve, até perceber que a sua ficção ganha vida.
Essa percepção, banhada a adrenalina, numa série de perseguições mirabolantes, rodadas com exuberância, lança o filme num registo mais próximo dos códigos de espionagem dos anos de Guerra Fria, numa boa conversa dramatúrgica com uma tradição de género. Essa conversa é embalada por uma banda-sonora que se agarra aos tímpanos.




















