Dois filmes, dois objetos onde o silêncio é reinante, e duas formas estéticas dispares. “Armugan”, de Jo Sol, e “Baby”, de Juanma Bajo Ulloa., têm dado que falar em diversos festivais internacionais de cinema, preferindo as imagens às palavras para narrar dois dramas profundos, e focando a nossa atenção em elementos que normalmente vemos como adereços ou complementos: a direção de arte (cuidada), o som (virtuoso), uma cinematografia e montagem aprimorada na criação da atmosfera, e uma força evocativa em transformar as paisagens natuarais e os espaços artificiais em verdadeiras personagens.
Com um preto e branco espesso e um sentido observacional que vem fortemente do cinema documental, Jo Sol – já com várias décadas de carreira – leva-nos por um caminho tortuoso para contar a história da personagem-título: Armugan, um deficiente motor à beira do fim da vinda que é carregado para todo o lado, pelo meio de “caminhos de cabras“, por um cuidador que trabalha na unidade de cuidados paliativos de um hospital. A chegada deste cuidador vem carregada de uma atmosfera tétrica, pois é quase como uma sombra da morte que se avizinha. Preferindo reger-se pelas imagens e música, “Armugan” leva-nos numa viagem profundamente sensorial de forte componente existencialista. “O que é a vida?”, questiona-se pelas imagens, e não por palavras.
“Armugan é um poema visual sobre o final de uma jornada que nem sempre chega no momento esperado, nem sob uma lógica que permite que seja visto como um processo “natural”. Por esta razão, natureza e espírito foram fundidos numa história de poucas palavras, carregado de gestos e relacionamentos entre seres conscientes e as bestas. Produzimos símbolos e metáforas em vez de discursos fechados; a vida germinou atrás de um vidro alimentado pelo hálito humano, rochas inertes marcadas por sinais inequívocos de um passado, usando o território invisível que envolve o que chamamos de “vida”, para falar da morte. Este diálogo secreto é onde bate o coração de Armugan, onde a sua essência eclode”, diz Jo Sol sobre o seu filme.
Nos antípodas estéticos encontramos “Baby”, o mais recente projeto do controverso Juanma Bajo Ulloa, cineasta que em 1991 conquistou o Festival de San Sebastián com “Alas de Mariposa”, e que posteriormente triunfou no Fantasporto com “La Madre Muerta“.
Onde Jo Sol vê preto-e-branco, um sentido observacional de raízes profundas no cinema documental, Ulloa – através de um regresso ao tema da maternidade – responde com cores garridas, altos contrastes, e um realismo mágico que entra pelo território gótico da fantasia.
No seu espampanante e envolvente “Baby” seguimos uma jovem mãe toxicodependente que vende a filha a traficantes de crianças. Rapidamente, arrepende-se do ato e encontra coragem e força para trazer o bebé de volta. Mas para isso, esta mulher deve seguir um trilho pela floresta e encontrar uma casa misteriosa onde a velha senhora a quem vendeu a criança, um criado albino e uma menina com com uma deficiência motora abrigam o jovem rebento e escondem horrores.
Carregado de elementos fabulísticos como se o quotidiano encontrasse vida num conto dos irmãos Grimm, Ulloa leva-nos numa viagem sem qualquer palavra numa jornada de um cinema fantástico ciente das suas origens e ainda capaz de surpreender.
“Baby surge da devoção à beleza, da dor da perda. Do desejo de expressar a profunda ferida causada pela falta de amor. Essa busca pela beleza baseia-se na certeza de que as imagens e os sons que emergem daquelas criaturas que cada dia desejam, sofrem e lutam para viver contém uma beleza avassaladora. As plantas no seu estado natural, os pequenos animais da floresta, a chuva, o lago, o vento, a mãe vulnerável, o bebé na sua fragilidade extrema. As nossas atrizes vivem simplesmente uma experiência de absoluta imersão nesta história de fantasia credível. A sua principal ferramenta é a mímica e, acima de tudo, os seus olhos.”, disse o cineasta sobre o seu filme.
Ambas as obras estiveram em competição do Tallinn Black Nights

