‘Quando a Coisa Vira Outra’: Vladimir Carvalho eterno

(Fotos: Divulgação)

Em gesto de carinho pelo cinema sul-americano e em expressão de saudade, dá-se passagem, desta vez no Rio de Janeiro, à mostra 28 Anos da Cavideo. Às 21h deste domingo, a sala do Cine Estação NET Rio, na rua Voluntários da Pátria, 35, projeta Quando a Coisa Vira Outra. Trata-se de uma espécie de biografia cinematográfica de Vladimir, construída por Márcio de Andrade e Anna Karina de Carvalho como um ensaio — aliás, um tocante ensaio — de tom memorialista, sobre a arte de viver. É um estudo sobre o pragmatismo na silenciosa dinâmica da observação, que revela o mestre paraibano, consagrado por títulos como Barra 68 (2000) e O Engenho de Zé Lins (2006), como um artesão do real.

Bastaria um único filme de culto, entre as duas dezenas de obras que Vladimir realizou nas últimas seis décadas — para além dos seus compromissos como professor da UNB e como jornalista —, para que o seu currículo na realização alcançasse reconhecimento e entrasse para a posteridade: O País de São Saruê (1971). Correm nas veias desta longa-metragem o alento e o escândalo: a) a sua forma de retratar as desigualdades sociais do Nordeste, partindo de um mito para chegar à geopolítica, foi precursora na linhagem politizada dos cinemas latino-americanos; b) durante a sua exibição no Festival de Brasília, há 54 anos, o documentário foi sequestrado pela censura militar, sob um rótulo falso: “Este filme fere a dignidade nacional”.

Apesar disso, o conjunto das longas-metragens realizadas por este Dick Tracy de Itabaiana vai além das mordaças e dos seus impulsos lúdicos, como comprova a pesquisa audiovisual dirigida por Márcio de Andrade. Nele, vemos um Vladimir com os pés no chão, que, mesmo sob pressão de patrulhas fardadas, ofereceu ao cinema nacional um épico: Conterrâneos Velhos de Guerra (1991). Realizou ainda retratos refinados de artistas, como o premiado Rock Brasília (2011), sobre Renato Russo (1960–1996), e Cícero Dias – O Compadre de Picasso (2016).

Sonhos e promessas sempre se transformaram em longas-metragens na trajetória de Vladimir, que ajudou a moldar um dos fotógrafos mais respeitados da América Latina: o seu irmão mais novo, também cineasta, Walter Carvalho, realizador de Moacir Arte Bruta (2005). “Depois que o meu pai morreu, quem assumiu o carinho paterno na minha vida de menino foi o Vlad. Quando era muito novo, dormia num quarto cheio de livros. Lembro-me nitidamente da primeira vez que vi Hemingway numa contracapa: foi na mesinha ao lado da cama dele”, contou Walter ao C7nema, num encontro do passado. “Entrei para o cinema depois de o Vladimir me levar para as filmagens, nas primeiras viagens que fez.”

Segundo Márcio de Andrade, Vladimir construiu uma iconografia própria do Nordeste, sem deixar de lado o Centro-Oeste de Brasília. “Ele conseguiu transitar por essas regiões e biomas tão diferentes, mas com semelhanças. Soube lidar sempre com a representatividade do nordestino em trânsito”, afirmou o biógrafo cinematográfico de Vladimir ao C7nema, durante a realização de Quando a Coisa Vira Outra.

A mostra Cavideo prossegue até quarta-feira, com a sessão de Seu Cavalcanti e um tributo ao professor João Luiz Vieira.

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