Nesta primeira animação a concorrer à Palma de Ouro desde “Waltz With Bashir“, de Ari Folman, em 2008, o pano de fundo é o Holocausto, mas essa palavra, ou Shoah e/ou judeu e/ou Auschwitz nunca são mencionadas no novo filme de Michel Hazanavicius, o realizador de filmes como o vencedor dos Oscars, “O Artista”.
Construído num 2D de tonalidades suaves e contornos grossos que fazem incidir as personagens no meio de um espaço imenso de floresta por onde passam os comboios da morte dos nazis, o filme arranca com uma mulher a recolher “a mais preciosa das cargas”, uma bebé que é lançada do comboio pelo pai.
Nunca nomeando a mulher, o marido desta (apenas referido como o Lenhador) ou a bebé, Hazanavicius coloca no patriarca da família um obstáculo minado pela ignorância e desinformação que o envolve. Temendo aquela criança, que acredita não ter coração, ele põe em xeque a esposa, pedindo que esta se livre do pequeno empecilho. Esta recusa e vai mesmo viver com a criança no palheiro da casa, uma situação temporária já que arco emocional do Lenhador vai levá-lo a abandonar aos poucos os preconceitos que todos têm naquela zona contra “os sem coração”.
Quando os habitantes da região começam a desconfiar da origem da criança, começa um novo calvário para a pequena, que progressivamente começa a ver desaparecer todos os que a tentam proteger.
Dando a sensação de pressa em estar concluído a tempo de Cannes, “The Most Precious of Cargoes” nunca consegue estar completamente articulado nas diferentes toadas que apresenta, sendo particularmente difícil de digerir quando entramos nos campos de concentração e o material gráfico de rostos distorcidos para abordar os que por lá passaram e faleceram lá soa a exploratório e até enganador nas representações. É que apesar das imagens terem o seu quê de “grito” de Munch, o cinema já viu representações semelhantes em paragens como o Purgatório ou Inferno de Dante. É um efeito Kuleshov, em animação, que não funciona, soando dessintonizado.
Se existe uma grande virtude no filme no filme de Hazanavicius é a manutenção do espírito da obra original em que se baseia, o livro de 2019 de Jean-Claude Grumberg, mas na adaptação da novela ao cinema denotam-se demasiados solavancos na travessia entre os “capítulos” que Hazanavicius coloca, através do pouco desenvolvimento das personagens que vão aparecendo pelo caminho da mulher do lenhador e, em particular, do antigo soldado com as marcas da guerra no rosto, mas também o pai biológico da bebé e as suas motivações no pós-guerra para se manter longe dela.
A música de Alexander Desplat, de inspiração Klezmer (é extremamente recompensante ver o filme ‘The Klemzer Project‘ para se compreender o destino deste género musical, antes referido simplesmente como música yiddish), também parece encaixar às três pancadas, contribuindo igualmente para uma estranha sensação de filme incompleto no seu pós produção.
Ainda assim, filmes como este ou “À procura de Anne Frank” são essenciais para não se esquecer o passado e a “banalidade do mal”, tão perto atualmente de ganhar uma nova vida num mundo cada vez mais desinformado e polarizado, mas no confronto entre livro e obra cinematográfica de animação, a experiência lírica sobressai, mesmo que Hazanavicius tenha tido a coragem de lhe dar nova vida e simplesmente não se limite a replicar a forma da narrativa.



















