Waltz with Bashir” por Carlos Lopes

(Fotos: Divulgação)

De vez em quando surgem filmes que nos esbofeteiam, não só para acordarmos da dormência e da rotina imposta por algumas correntes cinematográficas, mas também para acordarmos para certos assuntos que provavelmente nos passam ao lado.

“Waltz with Bashir” é um desses filmes.

Um professor dizia que os bons filmes são aqueles que, ao ver segunda vez, realçam pormenores que nos escaparam da primeira vez. Não sei como seria um segundo visionamento de “Waltz With Bashir”. A verdade é que, na minha cabeça só recordo aspectos positivos.

Embora não seja grande apreciador deste género de animação, estou completamente a favor da sua utilização neste filme. Afinal, a grande questão é como falar da guerra sem que nos percamos em imagens marcantes, horrendas e por vezes até glorificantes, de guerra? Por isso, o caminho de animação foi aqui uma boa saída.

Dois amigos juntam-se num bar e discutem um sonho que remonta à primeira guerra do Líbano. A partir daqui o espectador é levado a várias memórias que o realizador, personificado no ecrã, vai reencontrar ao falar com ex-combatentes e amigos, ao mesmo tempo que ele próprio tem um sonho recorrente que tenta decifrar. Freud tinha as suas teorias sobre os sonhos, e na literatura e nos filmes eles sempre são usados como um veículo de resposta, maioritariamente metafórica, para um fim.

“Waltz with Bashir” não é apenas de um veículo que nos relembra o massacre no Líbano em 1982, é igualmente o testemunho vivido e, neste caso, “animado” daqueles que viveram de perto os horrores da guerra mas, acima de tudo, o testemunho de uma guerra ainda hoje incompreendida e que tende a passar ao lado do espectador ocidental. Não é à toa que a academia israelita o premiou com 6 prémios, incluindo melhor filme e melhor argumento; e que foi seleccionado para Cannes em Maio.

É altura de abrir os olhos para este tipo de cinema de intervenção, de dar especial atenção ao choque conseguido entre a animação e as imagens de arquivo sobre o massacre que o realizador decidiu colocar no final do filme. Não poderia haver melhor contraste.

Este é mais um daqueles exemplos em que a ideia artística se junta de forma genial à ideia transmitida: não se trata apenas de cinema como entretenimento (sim porque o cinema deve sempre pensar no seu público). Trata-se igualmente de cinema de intervenção, daquele cinema que nos faz abandonar a sala de cinema e esquecer realmente. onde estamos?

Não se trata de “animação para crianças”. Muito pelo contrário. Se existe algum público ao qual este filme não está de todo dedicado é ao das crianças. Talvez ao juvenil que precisa de tomar consciência de que o mundo que o rodeia não se resume aos EUA e Europa.

Não é no tipo de animação que devemos pôr os olhos mas sim naquilo que ela representa e no que transmite nesta obra forte e brutal. Porque esse é também o mundo em que vivemos mas ao qual muitas vezes fechamos os olhos. Nesse caso se calhar a animação até nem é assim tão má…

Ari Folman escreveu e realizou uma espécie de documentário animado, que chegas às (poucas) salas portuguesas e, quem sabe, poderá ser visto por muitos interessados. Ou simplesmente esquecido, como o é muito do cinema internacional .

8/10

 

Carlos Lopes

 

Últimas