Entrevista a Jean Dujardin & Bérénice Bejo, a fantástica dupla de «O Artista» (The Artist)

(Fotos: Divulgação)

O casal de quem se fala. Apesar de não escutarmos uma palavra em «O Artista». Na esplanada em Cannes foi diferente. Agora são ambos nomeados ao Óscar por um filme francês. Algo que em maio passado estava longe dos seus horizontes.

Como desenvolveu a sua personagem? Pedir emprestado o bigode ao Errol Flynn? (risos)

Jean Dujardin – Na verdade, foi ao Douglas Fairbanks. Pensei que poderia servir ao George Valentin. 

Gostaria de poder trabalhar nos Estados Unidos?

JD – Não! (risos) Não necessariamente, não é esse o meu trajeto. E estou muito orgulhoso de podermos ter feito este filme em França. Acho até que temos ainda muitas coisas a fazer em França. O Michel já provou até que pode fazer comedia com os filmes OSS. Tenho muito orgulho disso.

No entanto, com este filme passará a ser muito mais conhecido. Não sente que a sua opinião poderá mudar? Não sente que precisa de maior poder?

JD – Sinto-me confortável em França, posso fazer os meus projetos. Por sinal, começou agora mesmo um filme em sketches, em França (Les Infidèles), o que é algo improvável no meu país. Talvez isso possa mudar depois. Com um papel que me interesse…

No entanto, paradoxalmente, ambos interpretam neste filme estrelas do cinema americano. Era algum sonho de criança?

JD – Mais um sonho de adulto, um sonho de ator. Este é um filme que cria uma certa apetência. É um filme tão lúdico e fácil de ver que é fácil de aderir. Claro que é um sonho.

Bérénice Bejo – Desde muito cedo que vejo filmes americanos. Sou argentina, por isso a indústria americana estava perto. Não tenho a mesma visão que o Jean. Para mim, fazer de estrela americana é um sonho, mas nunca pensei concretizá-lo porque vivo em França. Gostei de ser uma Gloria Swanson ou Lillian Gish. Por isso passei um ano a ver todos estes filmes e a pensar como faria se tivesse nascido neste período. Mas a verdade é que quem quis ser um homem. 

Jean Dujardin 

O Harvey Weinstein criou a Marion Cotillard, mas agora tem-na a si…

BB – Sim, vamos ver… Estou entusiasmada por ter notado em mim. Trabalho há quinze anos e não sou tão famosa como o Jean. 

JD – E tens as mesmas iniciais que a Brigitte Bardot … BB.

BB – Sim, e isso (risos).

Qual foi o maior desafio de fazer um filme mudo?

BB – O sapateado… (risos) É verdade que é um pouco diferente, porque a moção não vem do diálogo, mas do corpo. É mãos físico, sensível. 

De onde lhe vem a comédia?

JD – Da vida, da observação. Há também génios como o Peter Sellers e o Vittorio Gasmann. Muitas vezes, não vem da piada, mas do silêncio.

O filme conta a história de uma estrela, da sua ascensão e consequente queda. Não tem medo que lhe aconteça isso?

JD – Espero não ter de me suicidar quando isso acontecer (risos). Estou agora num período interessante da minha carreira. Mas há outras coisas na vida que o cinema. Haverá outros papeis, terei de me reinventar. Mas é sempre um desafio.

BB – Não concordo com isso. Acho que o George Valentin viveu o seu sonho. E acho que ele ainda tinha coisas a dizer com o cinema mudo. Ele estava errado, porque ninguém queria ver o cinema mudo, mas acreditou em si. Um pouco como sucedeu com o Michel, que teve de bater a todas as portas para fazer este filme, que ninguém acreditava. Mas conseguiu.

Sente que a sua relação com o seu marido se alterou com este filme?

BB – No início foi difícil, porque queria que existisse um equilíbrio certo entre ele e eu. Mas tive de encontrar o meu lugar. Houve alguns momentos de frustração, mas tudo passou bem.

 Uggiu e Bérénice Bejo 

Sente-se mais francesa ou argentina?

Eu sou francesa, mas nasci na Argentina. Vim para Paris com três anos de idade. Por isso cresci como uma francesa, mas sempre com um espírito argentino dentro de casa. Os meus pais fugiram da Argentina quando eu tinha apenas 3 anos e a minha irmã dois, e estão muito orgulhosos da minha carreira. Abandonaram as carreiras deles na Argentina, devido à política, para poder enfrentar uma vida fora do país.

O que faziam eles?

A minha mãe era advogada e o meu pai realizador. Hoje, a minha mãe trabalha no imobiliário e o meu pai no cinema, mas no laboratório, não como realizador.

Ao trabalhar com o Michael Hazanavicius fez já uma homenagem ao cinema dos anos 60 (OSS) e agora ao cinema mudo. O que se segue?

JD – Não faço a menor ideia. Há a possibilidade de fazer um terceiro OSS, que poderá passar-se em meados dos anos 70. Mas ainda está longe.

Gosta do James Bond?

JD – Claro, dos filmes do Sean Connery.

 

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