Emperrado por uma montagem demasiado trôpega para gerar tensão e confuso em demasia para alimentar reflexões contemplativas, o thriller “Hypnotic” comporta-se como se fosse “Memento” (2000), o filme de culto de Christopher Nolan, sem ter profundidade similar. Há na sua estrutura um princípio de “o inimigo mora em si”, como se via no filme de suspense amnésico de Nolan, segundo a qual a procura do detetive Danny Rourke (papel de um esforçado Ben Affleck) pela filha desaparecida só pode ser solucionada pela sua própria psique. Há um elemento fantástico no enredo dessa produção de 65 milhões de dólares que é a presença de uma espécie de Cassandra, uma clarividente, Diana, interpretada por Alice Braga (“A” força vital do elenco), e a citação a um projeto secreto de hipnotistas. É uma premissa instigante, que nos leva a uma outra referência pop: “Trance“, lançado há uma década por Danny Boyle. Estas alusões enquadram a trama com Affleck numa prateleira sofisticada de narrativas sobre labirintos da mente. Mas, não é esse o labirinto em que Rourke se perde. É na mão pesada do realizador: Robert Rodriguez.
Nascido em San Antonio, no Texas, no seio de uma família mexicana, ele impôs-se como promessa indie no início dos anos 1990, numa leva de revelações de Sundance, com “El Mariachi” (1992). Trazia no olhar um quê de John Carpenter e de Sergio Leone, afiado num prisma sociológico sobre a presença dos imigrantes latinos nos EUA. Viveu a chance de se enquadrar a Hollywood em 1998, com o sci-fi teen “The Faculty“, e a franquia “Spy Kids” (2001-2023). À margem do seu namoro com a indústria, piscou o olho ao zapatismo e com as inquietações políticas da imigração com o herói “Machete“, vivido por Danny Trejo. Teve ainda a chance de lutar pela Palma de Ouro de Cannes, em 2005, com a adaptação da BD “Sin City“, feita em dupla com o artista gráfico Frank Miller, autor da graphic novel. São filmes de forte solidez visual, regados a ação e pontuados por uma picardia típica da afluente carpenteriana.

O problema – que atinge “Hypnotic” em cheio – é a dificuldade de Rodriguez em converter essas marcas e ensejos num projeto estético autoral. A sombra de Quentin Tarantino, o seu colega de realização em “Four Rooms” (1995) e ator em “From Dusk Till Dawn” (a sua obra-prima, lançada em 1995), só fez embotar a sua evolução nos ecrãs. Todo o gesto de Tarantino no cinema é calçado por um tratado pessoal (de autor) sobre a dramartugia como instância filosófica, na qual as menções à sucata cultural (como as sandes do McDonald’s) são uma forma de pensar as balizas da sociedade de consumo. Não existe um tratado similar na obra de Rodriguez, tampouco existe uma trilha identitária que vá além do verniz, além da mera citação.
Rourke, personagem de Affleck em “Hypnotic“, não conversa nada com as personagens anteriores do cineasta. Ele parece uma expressão de vigilantismo sem essência heroica, sem potência, num reflexo da frágil estrutura narrativa de um realizador que não fez jus ao prestígio que ganhou na sua estreia.


















