É atribuída a Sócrates uma frase definitiva sobre a dimensão performática do fim: “Mas eis a hora de partir: eu para morte, vós para a vida. Quem de nós segue o melhor rumo ninguém o sabe, exceto os deuses”. Sempre socrático, no empenho de trazer à luz dimensões outrora inóspitas da condição humana, David Fincher faz em “The Killer” – o seu novo filme, que concorreu ao Leão de Ouro de Veneza – também uma performance, que se expande por 1h58 de narrativas numa ductibilidade radical dos códigos do thriller. É um filme suspense que se psicologiza na palavra e explode qual um furúnculo existencialista ao dar voz aos pensamentos de um carrasco de aluguer. Desde “Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto” (“Inquérito a um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita”), que deu ao romano Elio Petri (1929-982) o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 1971, o cinema não transpassava de modo tão profundo a mente de um assassino, fazendo das palavras não um adorno ou uma bússola informativa, mas, sim, num elemento formal essencial à sinestesia da sua construção dramatúrgica.

Fala-se imenso em “The Killer”, uma produção com o carimbo da Netflix que corre pelos cinemas em alguns países – como Portugal e o Brazil, com o título de “O Assassino” – antes de repousar num streaming (ainda) na saga de constante renovação do cardápio. É um prato de requinte frente ao mar de “Originals” que o povoam, como foram “The Irishman” (2019), “Da 5 Blood” (2020) e mesmo o hoje esquecido “Mank”, do próprio Fincher, lançado durante a pandemia, há três anos. A habilidade que o realizador – nascido a 28 de agosto de 1962, em Denver, no Colorado – tem de explorar a verborragia da sua personagem principal em paralelo ao que se mostra gerar uma tensão (paralela) de vetores que leva a tensão a uma dimensão inóspita ao que se vê em filmes de ação e suspense. É diástole e sístole a um só tempo num coração que bombeia adrenalina: é intimismo kafkiano de um lado e é “John Wick” do outro.

Já se esboçava algo assim em “Alien 3 – A Desforra” de 1992, quando o cineasta trancafiou uma franquia que vinha de um devir “Star Wars” numa prisão, de modo a confinar o beabá da ficção cientifica atrás das grades de uma narrativa carcerária, numa operação na qual “Veio Do Outro Mundo” (“The Thing”, de Carpenter) meetsEspace From Alcatraz”, de Don Siegel. Ali, a tenente Ripley de Sigourney Weaver esgueira-se por uma linha dramática entre o jogo de sobrevivência e o divã, num Grand Guignol interplanetário no qual conflitos de alma nunca antes vistos ou verbalizados da heroína são detonados diante do nosso olhar. Fez-se o mesmo no seminal “Se7en” (1995), fenómeno que cindiu a década de 1990 ao levar o barroco aos ecrãs de Hollywood, na antítese entre Justiça e justiçamento. “Fight Club”, de 1999, fez os ritos crepusculares da masculinidade, na metástase do patrulhamento ideológico das correções e da neurose, num mesmo dispositivo dramatúrgico. Ou seja, Fincher é um realizador-autor.

Apesar de um arranque de mãos dadas a Brad Pitt, numa parceria que englobou ainda o belo “Benjamin Button“, de 2008, igualmente cindido entre espírito dionisíaco e matéria apolínea, o cineasta vem procurando uma variedade de parcerias na escolha dos seus protagonistas: jogou os holofotes da sua autoralidade sobre Jesse Eisenberg (em “The Social Network”), Ben Affleck (no sublime “Gone Girl”, lado a lado com Rosamund Pike) e Gary Oldman, escolhido para viver o seu Herman Makiewicz, em 2020. Agora, aqui, ele tem Michael Fassbender, o que significa ter nas suas lentes um titã.

A BD de Jacamon e Matz que inspirou a longa-metragem, regada por The Smiths

Esbanjando fragilidade aparente, como se fosse ela a armadura ideal para resguardar o lobo do homem na sua essência, o “The Killer” de Fassbender nasceu nas BDs. A sua argamassa é “Le Tueur”, uma série de bandas-desenhadas policiais da dupla Matz (roteiros) e Luc Jacamon (desenhos) publicada pela Casterman, a partir de 1998, na coleção Ligne Rouge. Sublinhe esta informação. Sempre que o fogacho de atacar filmes baseados em banda desenhada surgir, sob efeito do snobismo crónico da dita intelligentsia que defenestra a Marvel e DC sem seleção, lembre-se de que várias experiências de autor podem vir dos comics. Neste caso, não temos super-heróis, mas, sim, uma personagem eivada pelo perfeccionismo e escudado de culpas por se ver como um fantasma. Cada nova canção entoada pela banda The Smiths na sua playlist pessoal, compartilhadas conosco a partir dos fones que o blindam do caos, preservam a sua lava num vulcão quente, enquanto as suas ações são frias, e os métodos gélidos.

Um erro numa operação faz com que ele se transforme em alvo dos que o contrataram, numa trama em que nada se explica, a não ser por uma violência cometida contra o que periga ser o seu amor (a atriz Sophie Charlotte). O que nos é apresentado a partir de sua falha numa execução, na qual mata o alvo errado, é um jogo de gato e rato do mais fino calculismo, coroado com uma sequência de luta antológica. É uma panela de pressão que ferve a percepção da plateia a lume alto, numa engenharia de som que nos empareda. Emparedados, ouvimos apenas o que o Killer Fassbender despeja, lambe, rumina e regurgita numa pregação da arte de matar… e de saber (sobre)viver nas sombras. É difícil não lembrar de “Assassins” (1995), de Richard Donner, e de “Assassin(s)” (1997), de Mathieu Kassovitz, menos pela questão de legado compartilhado – coisa que em Fincher não há – e mais pela cartografia das invisibilidades afetivas.

Entre as aeróbicas da câmara de uma direção de fotografia (assinada por Erik Messerschmidt) atenta ao chiaroscuro e às hipérboles de luzes noturnas, o matador de Fassbender encasula-se num cerimonial de autopreservação que evoca a letra de “Take Me Out Tonight”, dos Smiths: “Take me anywhere/ I don’t care, I don’t care, I don’t care/ And in the darkened underpass, I thought/ Oh, God, my chance has come at last/ But then a strange fear gripped me/ And I just couldn’t ask”. É Fincher a soltar os seus demónios.
       

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Jorge Pereira
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