A carreira do ator francês Swann Arlaud tem sido marcada por papéis psicologicamente marcantes, contidos, como se dentro de si escondem um outro eu que frequentemente vai marcando presença nas decisões e psicoses.
Seja como um homem de trinta e poucos anos que é criador de vacas leiteiras e terá de lidar com uma epidemia que ameaça dizimar todo o seu rendimento (Petit Paysan), uma vítima de pedófilia da Igreja (Graças a Deus), ou como Yann Andréa, o companheiro de Marguerite Duras (Vous ne désirez que moi), Arlaud tem deixado a sua marca no cinema gaulês fora dos holofotes mais comerciais, e sempre através de personagens construídas com bastante complexidade, como que numa guerra constante contra os clichês. Isso volta a acontecer em “Tant que le soleil frappe”, um objeto que poderia facilmente cair no rótulo do cinema social francês que acima de tudo se assume como “feel good movies”, mas que prefere ser antes disso tudo a radiografia pessoal a um arquiteto paisagista idealista que tem o sonho de reabilitar uma praça cinzenta em Marselha com o projeto de um jardim.
Estreia absoluta de Philippe Petit nas longas-metragens, “Tant que le soleil frappe” sente-se sempre como um objeto da linhagem artística e ideológica de cineastas como Laurent Cantet e Stephane Brizé, onde os valores pessoais e ideologias utópicas, repletas de boa vontade e altruísmo, são normalmente atropeladas pelo realismo capitalista. E tal como nos filmes de Brizé, do idealismo à obsessão é um mero passo, como se uma força pulsante – que somos incapazes de deter – nos leve contra a corrente pragmática contemporânea, com óbvias consequências a nível pessoal e familiar.
Tudo no filme de Philippe Petit é contenção e não exploração, ou manipulação panfletária, preferindo antes o cineasta seguir uma personagem na sua luta (sonho), mas que para isso terá de fazer um verdadeiro jogo de cintura ideológico para a sua concretização. E é nisto que Arlaud volta a brilhar, não por qualquer exuberância expressiva a atuar, mas por mais uma vez carregar dentro de si uma fúria enclausurada que raras vezes se manifesta através da fisicalidade.



















