Sergi López: o catalão “sortudo” que não pára de filmar

(Fotos: Divulgação)

Sergi López está em Lisboa na CineFiesta para apresentar El Viaje de Marta (Staff Only)

Na sua biografia na IMDB, nas marcas distintivas da sua carreira, está escrito que Sergi López “frequentemente interpreta personagens antipáticas, como namorados abusivos, vigaristas sem coração e psicopatas.

A IMDB não faz p*** ideia do que está a falar“, disse-nos o divertido ator numa conversa esta sexta-feira em Lisboa, a propósito da sua participação na Cine Fiesta com um drama assinado por Neus Ballús sobre um pai e uma filha que passam férias num resort no Senegal.

Antipáticos foram aí 2% dos meus papéis, mas esses 2% foram o Labirinto de Fauno do Guillermo Del Toro e o Estranhos de Passagem, do Stephen Frears“, acrescentou o catalão, que continua a descrever o Capitão Vidal do filme de Del Toro como a personagem mais malvada que interpretou na sua carreira. “Sim, continua a ser o mais demoníaco. Fascista, Franquista e Espanhol“, disse antes de lançar uma forte gargalhada, pelo toque de humor negro que usou num momento de cada vez maior crispação entre a Catalunha e Espanha.

Sergi López em O Labirinto de Fauno

Já falando mais a sério sobre o Capitão Vidal, López disse que em todos os filmes, mesmo as personagens mais malvadas, têm em algum momento “cor e sorriem“. “Mas Vidal nem sorri. Ele não é bom nem para ele, nem para o filho, nem para ninguém (…) É como um animal, um verdadeiro psicopata (..) A personagem está muito bem escrita. O Guillhermo Del Toro é um génio“.

El Viaje de Marta: Sergi López em África no meio de não-atores

Vindo do cinema documental, Neus Ballús impõe no seu El Viaje de Marta um registo com muitos códigos e regras desse género, filmando muitas das sequências através de uma pequena câmara de filmar, dando a clara sensação de “filme de férias familiares”. Curiosamente, e ao contrário do que se esperaria, Ballus impôs um guião minucioso que todos tiveram de seguir, havendo pouco espaço para a improvisação.

Outro dos desígnios da cineasta, que escolheu López depois de o ter visto em Un dia perfecte per volar (2015), foi o de misturar não-atores com atores profissionais. “Ela queria que eu interagisse com a minha filha e filho de forma natural. Mandou-me o guião, eu li e vi que não era apenas um filme sobre a relação entre um pai e uma filha, mas falava também do turismo, do colonialismo, das raças e das hierarquias nas relações humanas“.

Sobre filmar em África, López diz que é diferente filmar nesse continente, mas isso também ajudou os não-atores a entrar no espírito que o filme pretendia: “Ela está com o pai e não faz ideia de nada, ela vai descobrir o Mundo. Ela vai encontrar o outro; outra realidade. Ela faz amizades, mas não está no mesmo mundo que eles“. O facto de estar com não-atores também não incomodou o catalão, pois se normalmente é obrigado a construir uma personagem, aqui foi precisamente o contrário: “a ideia era passar despercebido. Filmamos uma cena num mercado de peixe e eles não eram atores ou figurantes. Era um mercado de verdade. O jogo aqui era não encontrar um ator em cena. O objetivo era montar uma família entre os atores e os não atores e passar pela paisagem despercebido, como que camuflado“.


Harry, um Amigo Ao Seu Dispor

López tem uma carreira internacional invejável, com projetos em Espanha, França e muitos outros países. Com humildade, o ator confessa-se um “sortudo“. Aqui metemos um travão e perguntamos diretamente: ‘Sorte? Sabe que tem talento, certo?‘. Sergi diz que agora consegue ver isso, mas volta atrás na sua vida para explicar essa tal “sorte”: “Fui a Paris estudar numa escola de teatro e não sabia falar francês. Aprendi francês, conheci pessoas e fiz um primeiro filme. E há um tipo que procura um ator, tipo tu: com uns 30 anos, magro e com camisola amarela. E tu dizes, bem essa descrição sou eu. Foi assim. E trabalhei com este realizador cinco vezes e os cinco filmes vão a Cannes. É esta a sorte que falo. Depois disso tive tanta sorte, para além da qualidade, pois sempre tive de dizer mais vezes que não do que sim. Projetos de Espanha, França, Itália. Não posso dizer que sim a todos e isso é um privilégio que tenho [na minha carreira]“.

Novos projetos de um ator “sortudo”

Pegando no tema da sorte, decidimos confrontar López com três dos vários projetos que o cineasta tem na agenda. Um deles é super mediático, de tal maneira que ele nem sequer teve direito a dar uma olhadela em todo o guião. “Não sei do que o filme trata“, disse entre risos, explicando-nos que esteve apenas três dias nas filmagens e que lhe foram entregues as suas falas em 2 folhas de papel com uma marca de água com o seu nome para evitar cópias ou a divulgação na imprensa. Para além disso, não havia permissão para fotos no set, nem conversas com jornalistas, nada…

O filme em questão é Rifkin’s Festival,  o novo projeto de Woody Allen, filmado com todo o secretismo aqui ao lado, em Espanha. E se ele não pode falar muito da história, porque não a conhece por inteiro, pode falar da sua personagem e da experiência de filmar com Allen: “Pensava que era alguém mais tenso do que era, pois quando cheguei ao set toda a gente dizia …vem aí o Woody [em jeito de alerta]!!  Ele chegava, não dizia nada, nem bom dia, mas foi impressionante. Pensava que, tratando-se de um homem mais velho, já com uns cem filmes na carreira, estaria ali apenas para filmar mais um. Nada disso. Quando roda e há uma cena de comédia, ele ri-se. E note que diz coisas muito interessantes“.

Sobre o seu papel, o ator diz que tal como ele, desempenha alguém também com muita sorte e que contracena diretamente com o protagonista, interpretado por Wallace Shawn, um ator americano “muito simpático e divertido“.

Lá dando uns pequenos detalhes do filme, que foi percebendo durante as filmagens, López diz que é um típico trabalho de Allen, cheio de diálogos inteletuais, conversas sobre arte e um homem em permanentes conversas com uma mulher bonita, sem nunca se envolver com ela: “A minha personagem é a de um artista louco, muito cómico, que apanha uma enorme bebedeira numa das cenas, e que age de forma quase teatral. É uma pessoa muito extrovertida“.

Sobre facto de ter aceite trabalhar com o cineasta, embora muitos atores se neguem atualmente a fazê-lo devido ao alegado caso de abuso a Dylan Farrow há cerca de 25 anos atrás, López diz que procurou informação sobre a situação, mas como Allen passou duas vezes por investigações que o ilibaram, decidiu aceitar o convite: “Não sou juiz (…) o que me interessa é que foi ilibado duas vezes do caso“.

Outro projeto que o ator tem na agenda é La Pièce rapportée, o novo filme de Antonin Peretjatko [foto abaixo], o realizador de A Rapariga de 14 de Julho e La loi de la jungle. “Sim, estamos a filmar agora. Estamos a meio. Domingo vou para Paris e segunda-terça-quarta termino as filmagens“, confidenciou.

Sobre o tema do filme, López só conseguia rir enquanto nos descrevia o enredo. E sim, desta vez teve direito a todo o guião: “Este filme é de outro planeta. Os outros filmes dele têm um humor muito absurdo, excêntrico, mas também algo político no meio. (…) O filme segue uma família de aristocratas franceses, muito ricos e fascistas. A forma como falam é hilariante (risos), estilo, alguém chega e diz: ‘o governo anulou o imposto sobre as grandes fortunas”. E todos festejam abrindo o champanhe e dizendo coisas como: ‘viva mamã! O dinheiro com que escapavamos aos impostos já pode ser gasto em caça a javalis e veados’. É muito surrealista. Eu sou o mordomo (…) É um filme muito excêntrico e visualmente muito trabalhado (…) tudo é exuberante, burlesco e grotesco“.

Finalmente, o ator acabou ainda em setembro as filmagens de um novo filme, desta vez com a espanhola Icíar Bollaín, a responsável por Também a Chuva e A Oliveira do Meu Avô. Com o nome La boda de Rosa, o filme é a primeira comédia da cineasta, e a protagonista é Candela Peña, com que a realizadora já tinha trabalhado em Dou-te os Meus Olhos: “A Candela é uma máquina, muito engraçada“.

Sobre a história, o ator diz que acompanhamos uma família de Valência com três irmãos e que esta é uma comédia mais ligeira, mais suave e social, longe do surrealismo espampanante de Peretjatko.

Preocupação pela Catalunha

A detenção de políticos catalães, as manifestações e a violência não passam despercebidos a Sergi López, o qual se mostra “preocupado” com o que se está a passar, até porque a resposta do estado espanhol à reivindicações são as que se veem na TV: violência. Ainda assim, o ator mostra-se esperançoso com o futuro na Catalunha, especialmente porque vê muitos jovens a exigir “democracia” e a manifestarem-se como também os portugueses já o fizeram e atualmente vemos em Hong Kong. “Espero que do outro lado haja mais calma“, diz, frisando mais uma vez que – numa era em que é mais difícil o coletivismo – ver tanta gente junta por uma causa é um sinal de esperança para o futuro.

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