Perigosa, mas franca, a frase “as pessoas dão muita importância à Verdade”, dita num dos momentos de maior serenidade de La Grazia, cai como uma guilhotina sobre as cabeças que se arvoram em decidir as urgências deste mundo num tempo de polarizações e cancelamentos, no qual os corpos são embalados em novos tabus. Paolo Sorrentino, realizador responsável pelo diálogo acima, é um ente criativo avesso aos patrulhamentos do presente, usando o hedonismo para descarregar os cabrestos (ditos) civilizatórios que nos normatizam. Não é de estranhar a sua ironia com interpretações judicativas dos factos, que levam a caças às bruxas, por vezes afetivas. No filme com que abriu o Festival de Veneza 2005, aplica essa verve irónica para libertar o seu protagonista — um presidente da república — da obsessão em descobrir com quem a sua finada mulher o traía. Não fala dela com rancores ou ódios: “Aurora era a minha liberdade”, diz a certa altura o personagem de Toni Servillo, citando o nome da companheira desaparecida. A angústia no seu peito é que o amor se foi… a sua gestão está a chegar ao fim… a sua Itália não sabe se quer legalizar a eutanásia ou não… a sua filha só lhe permite comer um peixe insosso na grelha… e o outono (de tudo) está prestes a chegar.

Em geral, Sorrentino é estroboscópico e nervoso, com cortes taquicárdicos na montagem e enquadramentos rebuscados, cheios de som e de fúria. Aos 55 anos, contudo, o vencedor do Óscar pelo monumento A Grande Beleza (2013) regressa ao grande ecrã mais tenro… e terno… a arriscar-se em planos mais dilatados e a deixar Servillo, o seu titã de estimação, destroçar palavras numa composição de vulnerabilidades existenciais que só monstros sagrados da interpretação foram capazes de realizar. Ganhou a Coppa Volpi de Veneza por isso.

Daria D’Antonio, a diretora de fotografia de La Grazia, filtra os excessos de cor tão apreciados por Sorrentino no passado, a fim de assegurar planos mais arejados para a história de Mariano De Santis, um líder que todos parecem amar, mas que não se tem amado muito bem. A sua viuvez é um conflito existencialista em metástase no coração, o que o leva a revisitar aquilo que preservou do seu passado como juiz. A política fez com que aposentasse a toga em prol da faixa presidencial. Agora, querem a sua vaga, mas, antes, precisa decidir se deve ou não consentir que pacientes terminais abreviem as suas vidas. A opinião pública persegue-o e a sua consciência anda embatucada por aflições. Um encontro com o chefe de Estado português, sob chuva e ventania, numa sequência hilariante, fá-lo confrontar o Velho Mundo com preocupação. A Europa em que praticava a Justiça na Corte já não é a mesma. Nem há espaço para as festas que Sorrentino oferecia nos seus filmes de outrora.

arte do que fez há uma década em Youth (2015), com Michael Caine e Harvey Keitel, ao abrir uma reflexão sobre o envelhecimento e o cansaço, regressa em La Grazia, mas agora assombrado por espectros geopolíticos. Esses fantasmas ressoam, mas não pesam, pois tudo soa leve nesta comédia de tons dramáticos sobre decisões e acomodações, em que Servillo canta por duas vezes, num desempenho livre, numa busca por redefinir um homem que é maior do que o seu cargo… é maior do que os seus amores. Só não é maior do que os seus sonhos. Por isso, eles desapareceram, assustados com a incapacidade do presidente em devanear. A busca por sonhar de novo torna o novo Sorrentino um sopro de lirismo.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
la-grazia-do-cinema-de-sorrentino-e-que-ele-faz-sonharDaria D’Antonio, a diretora de fotografia de La Grazia, filtra os excessos de cor tão apreciados por Sorrentino no passado, a fim de assegurar planos mais arejados para a história de Mariano De Santis, um líder que todos parecem amar, mas que não se tem amado muito bem.