Keep Calm and Hail Satan: à conversa com Lucien Greaves, fundador do Templo Satânico

(Fotos: Divulgação)

Hail Satan? (Salve Satanás?) estreia sexta-feira na Filmin

Não esperem rituais macabros, sacrifícios humanos ou algo semelhante no Templo Satânico. O “satanismo”, tantas vezes transformado em cliché de rituais e orações ao demónio, estigmatizado desde sempre, como nos anos 70, 80 e 90 nos EUA através de um grande pânico moral, é aqui apresentado de uma maneira completamente diferente, uma forma plena de ativismo para combater a promiscuidade entre a religião, a política e o estado.

O Templo Satânico é o foco de Hail Satan?, filme de Penny Lane que nos introduz ao mundo deste grupo que nasceu nos EUA mas que se espalhou um pouco por todo o globo. E ao contrário do que seria de esperar num site focado na arte cinematográfica, não falamos com Penny Lane sobre o seu documentário e as suas opções visuais e narrativas, mas sim com Lucian Greaves, um dos fundadores e uma figura incontornável do Templo Satânico.

Eis alguém que constantemente põe em xeque o poder nos EUA para evitar que a religião e as suas ideias sejam transpostas para a política e impostas na lei das nações.

Como foi abordado pela realizadora Penny Lane para a execução deste documentário e qual foi a sua primeira reação a essa abordagem?

Ela leu sobre nós na imprensa. Sinceramente não me lembro da abordagem inicial, mas recebi um email dela ou do produtor para falarmos da possibilidade de fazer este filme, coisa que não estava muito interessado inicialmente. Já tivemos várias pessoas a nos proporem fazer documentários, especialmente em alguns períodos da nossa existência. Agora existem menos propostas, pois ao Hail Satan já foi lançado e as pessoas já não tem tanto interesse em voltar a entrar neste território, ou fazer uma espécie de Hail Satan 2. Mas no passado tivemos muita gente interessada em fazer documentários sobre nós, ou a convidar-nos para fazermos programas de TV. Até houve vários convites para fazermos algo na linhagem de reality shows, coisa que não tinha o mínimo interesse. Eu não queria fazer um filme que entrasse nesse território dos reality shows, com as suas táticas de mostrar a vida dos indivíduos. Sentia que isso ia denegrir o movimento maior que está por trás de tudo. Isto é um movimento com muitas pessoas e não queria reduzi-lo a uma amostragem de algumas pessoas.

Queria ter a certeza que qualquer cineasta que trabalhasse connosco compreendesse quem eramos, porque as pessoas se identificavam connosco religiosamente e na nossa forma de ativismo. (..) Eu encontrei-me com a Penny, que já tinha pesquisado e lido muito sobre nós, e já tinha uma ideia bem formada de quem eramos. Vi alguns dos seus filmes anteriores e gostei muito do seu filme Nuts!. Ela também se mostrou disponível para trabalhar dentro das restrições que pus em cima da mesa, como não reencenarmos nada que tenha acontecido. Ela tinha de filmar as coisas que aconteciam e nós não iamos encenar nada. Não queriamos que isto se tornasse um “biopic” sobre mim ou qualquer outra pessoa. Teria de ser um filme sobre o Templo Satânico e os assuntos com que lidamos. Nessas restrições, eu não tinha a palavra ou poder de dizer como o filme deveria ser ou como a narrativa seria montada.

Estou feliz com o resultado final e espero que as pessoas vejam-no como um bom filme que as introduz naquilo que o Templo Satânico é.

E vocês têm um trabalho tremendo em termos de ativismo, especialmente porque nos EUA a religião está muito enraizada na política. Um país que muitos dizem é baseado nos princípios do cristianismo. Foi essa mistura de poder que o levou no início da fundar o Templo Satânico? Eu sei que tudo nasceu de uma piada, mas de repente tudo se tornou muito sério.

Nunca foi uma piada, mas sempre houve aquele elemento de “partida” que advinha do ativismo político que faziamos. Era inevitável, pois as pessoas viam o que fazíamos como algo chocante, até porque tocamos nesta noção de “liberdade religiosa” , na verdadeira questão da “liberdade religiosa”, de maneiras que nunca ninguém esperou. Todas estas lutas que têm ocorrido pela liberdade religiosa, de certa maneira, exploram uma certa dominância do pensamento cristão na praça pública. Nós não somos uma nação cristã, nós fomos fundados como uma nação secular que respeitaria a liberdade religiosa. O Templo Satânico mostra às pessoas o que liberdade religiosa realmente significa. Significa uma posição governamental de neutralidade, que o governo não escolhe entre religiões o que litiga e legisla. Eles não podem preferir uma religião sobre a outra perante o público, como quando pedimos tratamento igual, por exemplo no Capitólio, juntamente com o monumento dos 10 Mandamentos.

Se olharmos para o ambiente político atualmente nos EUA podemos ver onde caímos no que diz respeito à forma dominante de poder (…) há várias gerações. O direito à religião quase que tomou conta totalmente do Partido Republicano, que cada vez mais apresenta dúvidas perante a governação e a ciência, ao ponto de termos pessoas aqui que pensam que o Covid-19 é uma farsa e invenção (hoax).Temos pessoas a protestar para o fim do isolamento e a maioria delas está ligada a estas organizações religiosas teocráticas que têm uma perspetiva completamente diferente da realidade, muito próxima do pensamento da Idade Média, ao ponto dos EUA estarem a fazer figura de parvos no que diz respeito a como agem perante esta pandemia.

E com o Donald Trump à frente dos EUA tudo isso tornou-se mais grave, não?.

O Donald Trump é um desastre absoluto para os EUA. Eu não sei como vamos conseguir recuperar depois deste mandato de quatro anos. Acho que será o último prego no caixão – no que diz respeito à liderança e dominância dos EUA – se este idiota incompetente for reeleito em novembro.

Sim, muita da discussão atual está ligada à forma como ele tem lidado com este coronavírus. Recentemente ele até aconselhou as pessoas a injectarem detergente. Relativamente ao Templo Satânico, programaram alguma forma de ativismo nestes tempos de confinamento?

É complicado fazer qualquer tipo de ativismo quando estamos todos num regime de confinamento, pois temos de ficar em casa e não nos podemos juntar e protestar. O melhor que podemos fazer neste momento é manter as nossas comunidades a salvo e ter a certeza que têm a informação mais atualizada sobre os acontecimentos.

Sabe, temos uma verdadeira epidemia de desinformação, especialmente nos EUA. Temos de evitar de dizer que o Covid-19 é uma farsa para que sejam vendidos certos tratamentos fraudulentos médicos. Todos estamos confinados, em maior ou menor escala no que diz respeito ao pânico e ansiedade, por isso achamos que o que melhor podiamos fez nesta fase era mantermo-nos disponíveis para a comunidade por teleconferência em eventos por streaming. Manter as linhas de comunicação abertas e suspender algumas atividades até que possamos ter uma maior compreensão de como será o futuro mais próximo.

E quando se tornou líder deste grupo isso levou-o a certos sacrifícios da vida pessoal. Por exemplo, sei que recebe imensas ameaças de morte. Como é viver diariamente com essa pressão?

Infelizmente é algo com que nos habituamos a viver. Se recebes muitas ameaças de morte, mas ninguém te mata, aprendes a viver com elas. Mas claro, basta uma dessas pessoas concretizar a ameaça para que tudo mude. É um reflexo triste do estado do discurso político atual no mundo e nos EUA, ondes não podes expressar uma opinião sem que a primeira reacção a isso sejam ameaças de violência física. É algo que cada vez vemos mais, embora saiba que sempre existiu no passado. Sinto que as coisas hoje estão mais polarizadas que no passado e as pessoas estão mais propensas a reagir violentamente e de forma mais vitriólica. Creio que isso está assim pelo ambiente criado nas discussões nas redes sociais, onde as pessoas se tornaram mais polarizadas e isoladas.

Se não fosse a pandemia agora eu diria que um dos maiores problemas que precisamos confrontar actualmente é a forma como a desinformação inundou as redes sociais. Como plataformas como o Facebook se tornaram a primeira fonte de informação das pessoas e de consumo de notícias. E a forma como isso afectou o ambiente das mentalidades.

E quando criou o Templo Satânico, alguma vez imaginou que ele se tornaria como uma franquia, com ramificações na Europa e outros países?

Na verdade, sim. Eu realmente pensei, quando começamos a falar destes temas, que estávamos a falar em nome de várias pessoas que não sabiam quem eramos. Ainda não nos tínhamos conectado com uma grande parte da população que não tinha voz. Por isso não me surpreendi quando vi pessoas a identificarem-se com isso, mas supreendeu-me a extensão. Que certas pessoas com vários panos de fundo se começarem a converter as nossas ideias “satânicas”. Eu sabia quando começamos com o templo que existiam pessoas com afinidade a esta narrativa “satânica” (…) mas tem sido extremamente gratificante ver a envolvência das pessoas neste projeto. Tem sido uma experiência fantástica de inúmeras formas. Sem dúvida, este é o melhor cenário que alguma vez imaginamos quando iniciamos [o Templo].

E como é a relação entre o Templo e os Media e com outros meios, como a Netflix, por exemplo, com quem tiveram problemas [caso Sabrina]? Existe essa colaboração para travar aquela imagem negativa muito ligada à forma como o “satanismo” foi abordados ao longo dos anos?

Bem, tenho de dizer que algumas pessoas gostam de imaginar que são experientes em relação aos Media, quando na verdade nunca tiveram experiência nisso. Existe um grande cinismo no que toca aos grandes grupos de Media, uma noção que não devemos acreditar em nada do que escrevem e que devemos procurar fontes independentes. Esse é uma das partes do problema da informação, pois as pessoas pensam que palhaços conspiracionistas como o Alex Jones são fontes mais honestas de informação que a CNN ou o New York Times. Na minha própria experiência, lidando com os Media, essa desonestidade não existe. É muito raro que os Media certificados inventem histórias. As vezes os comentários que fazem podem ser tirados do contexto e muitas das vezes essas coisas acontecem de forma não intencional. Na maioria das vezes são esses jornalistas-cidadãos e websites que fabricam histórias radicalmente incorrectas. Os Media [certificados] têm mostrado uma verdadeira habilidade de se corrigirem a eles próprios e reportarem as coisas de forma neutra, como em relação ao Templo Satânico, e é por isso que nos veem onde estamos agora, com muito mais gentes envolvida naquilo que dizemos e fazemos.

E depois deste documentário tiveram um incremento de membros e pessoas que se quiseram envolver nas atividades do Templo?

Sim, não sei bem a que nível, pois não sou daquelas pessoas que repara muito em picos e números. Mas trouxe todo o tipo de novas multidões. Primeiramente, é algo que assusta de certa maneira, mas até agora – e na sua maioria – não tem sido uma má experiência. Não foi – de todo – a entrada de uma má multidão. E creio que cada vez mais, a perceção das pessoas ao “satanismo” – que através de informações dadas pelo próprio Templo, quer por filmes como o Hail Satan! – tem mudado. Existe cada vez menos aquela ideia mal concebida nos anos 80 e 90 com o pânico moral [em relação ao satanismo].

Uma última questão. As maiores atividades do Templo Satânico são nos EUA. Já puseram a hipótese de irem a outro país, por exemplo o Brasil, onde os cultos religiosos e a política andam cada vez mais de mãos dadas, e cada vez mais vemos fanatismo [religioso].

Depende do panorama legal. Nos EUA, nós fomos considerados uma nação secular, apesar de alguns quererem redifinir o país como uma nação cristã. Por isso temos os recursos legais, o direito de igualdade de representatividade religiosa nos terrenos públicos. Não precisamos nos envolver em táticas de guerrilha, pois podemos lutar dentro do próprio sistema para assegurar os nossos direitos consagrados pelo pluralismo.

Não tenho as bases para saber legalmente a possibilidade de ações num país como o Brasil, teria de analisar mais detalhadamente as leis. Mas se tivéssemos uma “capela” no Brasil e eles tentassem lutar pela representatividade, eu diria-lhes para não lutarem por isso – pois se calhar não têm as mesmas leis que existem nos EUA – e seria necessário mudar as táticas, a abordagem, o ângulo para pedir nova legislação antes de chegarem ao ponto de lutar nos tribunais contra a exclusividade de representação nos terrenos públicos [de uma única religião]. Estas batalhas são válidas em todo o lado, mas a forma delas serem travadas depende sempre do panorama político do sítio em que nos encontramos.

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