Pose: carisma, purpurinas e seriedade

(Fotos: Divulgação)

Nova Iorque. Anos 80. Ascensão da cultura LGBTQ+, dos bares gay e da apoteose dos denominados bailes, onde a dança, a música e a moda tinham um papel central. Mas apesar deste cenário de festa, há um inimigo mortal, o HIV.

Esta é a pior época da doença, fase em que as perguntas não tinham resposta, não havia conhecimento acerca da forma como o vírus se propagava e, sobretudo, não havia como tratar ou dar dignidade a quem padecia da doença. As drogas pesadas começam a ser vendidas das ruas. O universo LGBTQ+ começa a lutar pelos seus direitos de igualdade e Trump começa a ser uma potência.

É neste cenário, entre festas e doença, que se enquadra a história de Pose, uma série criada por Ryan Murphy, Brad Falchuk e Steven Canals para o FX. Este projeto foi descrito por Murphy como um “projeto de paixão“, que – na estreia da série – anunciou que a parte dos seus lucros seriam doados a organizações de caridade que trabalham com a causa LGBTQ+.

A maioria do elenco é constituída por atores transgéneros e quase na totalidade, elementos de origem afroamericana, que vivem em torno da cultura dos bailes. Vivem em comunidades denominadas como “casas”, espaços que as/os albergam depois de terem sido expulsos de casa dos pais ou situações idênticas e que são geridas por “mães”.

No primeiro episódio somos apresentados à “Casa da Abundância”, liderada pela arrogante e snobe “mãe” Elektra (Dominique Jackson) que invade um museu e rouba roupas de monarcas da História para que a sua “família” apareça no baile da forma mais luxuosa possível.

Os bailes são geridos e apresentados pelo incrível Pray Tell, interpretado por Billy Porter, e são estas festas o ponto central do drama. Os bailes e alguns choques de personalidade, da forma de estar na vida e de lidar com os outros, estão na base dos problemas entre as “casas”. Blanca (Mj Rodriguez) era o braço direito de Elektra mas depois de ser diagnosticada como seropositiva decide criar a sua própria casa, a “Casa de Evangelista”.

Estas são as três personagens principais e todos os eventos da série decorrem em torno delas. Pose é divertida e ao mesmo tempo séria. Apesar de ter como cronologia os anos 80, as referências históricas aos problemas desta comunidade continuam, infelizmente, a existir. Pose entrou para a história da televisão: foi a primeira produção cujo elenco principal é maioritariamente constituído por atrizes transgénero e foi o primeiro, com estas características, a receber nomeações aos Globos de Ouro nas categorias de melhor série dramática e na categoria de melhor ator no mesmo género.

Pose é gloriosa, é aquele tipo de série que provoca no espectador o mesmo regozijo que um historiador de arte sente sempre que entra num museu. É uma espécie de Feira das Vaidades barroca com banda sonora pop assinada por Chaka Khan e Whitney Houston. É um retrato ousado e pomposo da comunidade LGBTQ+ norte americana sem nunca a envergonhar. Todo o exagero é bem enquadrado e totalmente justificado. Pose premeia o estilo e o espírito em vez de fardo argumentativo. É uma deliciosa viagem a Nova Iorque nos anos 80.

A primeira temporada de Pose está disponível no catálogo Netflix e a segunda estreou ontem, no FX (EUA).

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