Se há coisa que já percebemos ao longo da carreira de James Gray é que ele não quer modernizar à força o melodrama ou o cinema criminal, mas sim prolongar uma linhagem clássica americana, pensando sempre mais em tragédia do que em thriller, mais em melancolia do que em observação crítica.

A família, quase sempre origem e destino do amor, mas também de condenação, surge sempre povoada por figuras hesitantes que ambicionam outra vida, mas continuam presas ao bairro, à classe, ao sangue ou à ideia de dever. Em Paper Tiger, esse classicismo volta a aparecer em mais uma incursão pelo sonho americano do homem comum que se enfia num ninho de cobras criminal. Atravessando todos os temas de Gray, o filme funciona mais como reprise, não apenas do que já fez, mas do que outros fizeram, fosse no cinema clássico de Hollywood, fosse na dita Nova Hollywood, evocando muito do cinema de Francis Ford Coppola e Sydney Lumet. E fá-lo sem um rasgo de frescura, ainda que uma sequència final, com Adam Driver num campo de milho, sirva como cereja, mas num bolo requentado. 

Paper Tiger acompanha uma família nova-iorquina dos anos 1980 que entra em negócios perigosos com uma nova vaga de “empresários” vindos do Leste, agora que o domínio da máfia italiana sobre a cidade enfraqueceu. A iniciativa parte da personagem interpretada por Adam Driver, Gary, um antigo polícia que ainda se mexe pelos caminhos obscuros da lei, que convence o irmão, Irwin, interpretado por Miles Teller, a entrar num negócio no Canal Gowanus, que os pode fazer dar o salto para a abundância. Claro está que na tentativa de concretizar o sonho americano, estes dois irmãos vão chocar com a violência criminal extrema dos alegados parceiros de negócios, pondo em risco toda a família.

Regressando assim a um território comum, o de homens que continuam a tomar as piores decisões possíveis na tentativa do “salto”, o cineasta transforma eventualmente o filme num thriller, mas a sua queda esmagadora para o melodrama (com conteúdos pirosos, como se vê no final), acaba sempre por o colocar em bicos de pés, a olhar para o passado, para a história do cinema, com um olhar tão irritante como a velha hashtag dos tempos da pandemia: #vaificartudobem.

Usando novamente Nova Iorque ora como lugar de promessa, ora como espaço para a ruína, Gray filma-a com uma elegância sóbria e algo memorialista, olhando para os espaços industriais decrépitos à procura de uma qualquer gentrificação – da área portuária ao Bronx. Até as cenas interiores, sempre esbatidas com um filtro de época, não trazem nada de orgânico, mas meramente melancólico, como arqueologia visual aos tempos idos do cinema.

E na família de Irwin, há ainda que falar da esposa, interpretada por Scarlett Johansson, e dos dois filhos, todos arrastados para o caos e para o medo. Numa segunda linha do argumento, Gray traz ainda uma complicação para a esposa, que a transforma uma agente moral com algum pragmatismo e que põe na equação o jogo de lealdades entre irmãos.Convenha-se que Paper Tiger está longe de ser um desastre. Aqui, o problema é a absoluta incapacidade de sair da sombra de dezenas de thrillers que já vimos antes. Tudo aqui parece reciclado, calculado e dramaticamente domesticado, como se o filme existisse apenas para cumprir uma grelha algorítmica do clássico, entre a paranoia e a violência masculina. No fim, sobra um thriller funcional, mas dramaticamente excessivo, sustentado quase exclusivamente por um elenco em excelente forma, que faz muito mais pelo filme e pelas suas personagens do que o próprio realizador alguma vez consegue fazer.

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Jorge Pereira
paper-tiger-o-sonho-americano-afundado-num-canal-de-paranoia-e-violenciaJames Gray não quer modernizar o melodrama ou o cinema criminal, mas sim prolongar uma linhagem clássica americana, pensando sempre mais em tragédia do que em thriller, mais em melancolia do que em observação crítica.