Os Bárbaros do Universo

(Fotos: Divulgação)

Nessa altura, após ter perdido o licenciamento de “Star Wars” (1977) para um concorrente e de apostas falhadas em filmes como “Flash Gordon” (1980) e “Clash of the titans” (1981), a empresa californiana Mattel estava ansiosa por um filme que pudesse inspirar a sua nova linha de brinquedos.

Quando se constou a intenção de adaptar Conan ao cinema, a Mattel comprou os direitos ainda antes de haver um guião. Quando ele surgiu, constataram que o filme afinal era demasiado violento e totalmente inapropriado para o que pretendiam. Decidiram desistir do licenciamento e inventar a sua própria personagem, nitidamente inspirada em Conan. Um guerreiro musculado, com espada e escudo e com vestes onde se misturava o pelo animal e o ferro das armaduras. Chamaram-lhe He-man! E recriaram um mundo de fantasia em seu redor, o reino de Eternia, povoado por um vasto conjunto de aliados e inimigos – destacando-se, claro, o seu arqui-inimigo Skeletor – que lutam pela conquista de uma fortaleza, o Castelo de Grayskull, o antigo templo da cultura eterniana que armazena todo o conhecimento e todos os segredos do universo.

A ação decorre numa época incerta onde, estranhamente, há um tom medieval que coexiste com artefactos tecnológicos. Houve a intenção de combinar tecnologia com uma sensação de outrora, como se algo tivesse feito regredir o mundo a um passado distante, mas onde a tecnologia ia sendo reaproveitada e reintroduzida, muitas vezes de forma nitidamente rústica. Esta opção acabou por estabelecer uma forma de ombrear com o universo espacial e futurista de Star Wars e, simultaneamente, recicla alguns conceitos do argumento original de Oliver Stone para Conan.

No entanto, o que destacava estes bonecos da concorrência (Star Wars, Playmobil, GI Joe, etc), era a sua dimensão. Eram enormes e corpulentos, preparados para enfrentar batalhas épicas nas camas, tapetes ou estantes dos nossos quartos.

Comecei por ter o herói e o vilão: He-man e o Skeletor. Vi-os pela primeira vez numa extensa prateleira do El Corte Inglês de Vigo. Tinha sete ou oito anos e lembro-me que precisei de afinar muito bem os argumentos para convencer os meus pais a me comprarem aqueles dispendiosos amontoados de plástico e músculos. Eram bonecos caros, custavam cerca de 1900 escudos nas poucas lojas que os vendiam em Portugal. Tenho ideia que em Espanha eram mais baratos, pois existia uma espécie de acordo tácito com os meus pais em que estes só me comprariam esses brinquedos para lá da fronteira.

Já em casa, explorei, deliciado, todas as páginas do pequeno catálogo de papel que reunia todas as figuras disponíveis. Havia uma multiplicidade de personagens, algumas bastante exóticas e invulgares. Algumas estavam cobertas de pelo (Grizzlor), outras cuspiam água (Kobra Khan) ou brilhavam no escuro (Scare Glow), já outras pareciam revestidas de musgo (Moss Man). Este arrojo deu frutos. A Mattel projetava 13 milhões de vendas no primeiro ano e triplicou esse valor. A equipa responsável entusiasmou-se e deixou a imaginação vadiar ainda mais. Criaram um personagem que soltava faíscas verdadeiras pela boca (Saurod), um homem-mosquito que sugava sague que lhe escorria pelo peito (Mosquitor), um mutante com duas cabeças que se esmurravam uma à outra (Two Bad).

Vamos fazer um que cheira mal”, propôs Paul Cleveland (Vice-presidente de marketing da Mattel na altura) numa reunião. Algum tempo depois surgiu o Stinkor, cujo processo de produção envolvia a mistura de cápsulas de mau cheiro com o plástico cru. “O que raio andam estes gajos a fumar?”, questionavam algumas individualidades da indústria. “Esse foi dos melhores elogios que nos podiam ter feito”, afirmou Roger Sweet, um dos principais designers da linha. “Bem, na realidade, algumas delas foram desenvolvidas na companhia de algumas bebidas”, confessou mais tarde Mark Ellis, vice-presidente da Mattel.

(Em 2017 a Netflix lançou um documentário intitulado “Power of Grayskull”, que conta toda a história da saga Masters do Universo – brinquedos e desenhos animados – e partilha imensas curiosidades. Tu que lês estas linhas: Se este tema te desperta a mais ligeira centelha de nostalgia, tens de o ver!)

Tudo isto inseminou no meu imaginário a convicção da criatividade, inovação e superioridade destes brinquedos da Mattel perante toda a concorrência da altura. Eram tesouros de plástico de valor incalculável.

Numa tarde de 1987, aconteceu-me algo muito similar a encontrar um mapa com um X marcado.

Após as aulas, um colega de turma do 1º ciclo levou-me a casa de um amigo dele. Não me explicou porquê, disse apenas que ele precisava da minha ajuda. “Vai valer a pena”, sublinhou.

Mal entrámos, notei que havia uma espécie de desconforto que, inexplicavelmente, se prolongava, mesmo após ter sido apresentado ao anfitrião. Não o vou identificar, vou chamá-lo de Cyrano. Fomos rapidamente encaminhados para o quarto do Cyrano, como se o tema fosse interdito aos ouvidos da mãe, que deambulava pelo resto da casa.

“Este é o gajo que te vai resolver o problema”, disse o meu amigo ao Cyrano, que me olhou dos pés à cabeça durante alguns incómodos instantes de silêncio. Deduzo ter passado no seu scan mental, pois finalmente relaxou e foi direto ao assunto. “O nosso amigo disse-me que tu fazes redações boas e escreves bem. Preciso que me escrevas uma carta para eu entregar a uma rapariga de quem gosto”.

Esbocei um meio sorriso, a situação não era afinal assim tão estranha. Mas não deixava de ser um pouco esquisito, afinal de contas não conhecia o tipo de lado nenhum – andava noutra escola, o que naquela idade correspondia a viver noutro país – nem a rapariga. Enquanto pensava no que lhe responder, foquei o olhar na estante atrás dele. Estava recheada de figuras dos Masters do Universo. Uma dúzia ou talvez mais. Havia até naves. Isto, no imaginário infantil, era como a visão adulta de uma garagem cheia de carros desportivos. “Este sacana deve ser milionário”, pensei.

– Mas tu conheces a rapariga, dás-te bem com ela? – perguntei.

– Não, tenho um amigo que a conhece e já me contou algumas coisas, mas nunca falei com ela. Nem vou falar. Vai ter de ser a carta a falar por mim.

Explicou-me que era um pouco envergonhado e não sabia como a abordar. Tinha medo de causar uma primeira má impressão e estragar tudo. E não queria estragar tudo pois sentia que ela era “a tal”.

Com base nessa descrição, já estava mais que decidido a ajudá-lo, quando ele se antecipou e disse: “Se fizeres uma carta mesmo boa, pago-te o que quiseres”.

– Por acaso gosto muito de Masters do Universo e tu tens uns bem porreiros!

– Fixe! Faz aí algo mesmo à maneira e dou-te alguns.

Nem queria acreditar. Entusiasmado, retirei um caderno e uma caneta da mochila, fiz-lhe várias questões sobre os gostos dele e sobre o pouco que ele sabia dela, pedi-lhe para não me chatear durante uma horita, sentei-me na secretária do quarto e meti mãos à obra.

Não escrevi apenas uma carta. Criei uma espécie de jogo misterioso, onde ele ia ter de arranjar maneira de fazer chegar a ela um papelinho que ia desencadear uma sucessão de pistas secretas, que acabariam por a levar ao parque mais popular da cidade (Alta Vila), onde estaria escondida uma prenda. Essa prenda estaria acompanhada por outra pista, que a levaria a um outro sítio e uma outra prenda. E aí estaria a derradeira pista, que e levaria à biblioteca da escola, onde a carta estaria escondida nas páginas de um dos livros.

Expliquei-lhe o plano e entreguei-lhe todo o material.

– Está aqui tudo, a carta e todas as pistas. A sequência está enumerada neste papel. Só tens de escolher as duas prendas e descobrir um livro que ela goste. Depois preparas tudo direitinho como te disse e, quando quiseres, dás início à aventura.

O Cyrano debruçou o olhar para o material durante alguns instantes, depois olhou para mim, ergueu a mão e levantou o polegar, como se fosse um imperador romano a selar o meu destino.

“Será que me vai dar mais do que um?”, pensei para mim mesmo, entusiasmado, longe de imaginar as três palavras que se seguiriam.

– Escolhe quantos quiseres!

Trouxe seis e uma nave. Saí de lá orgulhoso. Aos 10 anos, obtivera o meu primeiro trabalho remunerado de escrita. E a unidade monetária era a mais valiosa. Não eram dólares nem libras. Eram pepitas do mais puro ouro plástico! Eram Masters do Universo!

P.S. Nunca mais vi o Cyrano. Não sei se o meu plano funcionou, mas gosto de imaginar que sim.

P.S. II: Não sei onde raio tenho a nave! Nem o sexto boneco que, curiosamente, era alado.

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