A 23.ª edição do festival decorre até 10 de maio e tem como espaços a Culturgest, o Cinema São Jorge, a Cinemateca, a sala Fernando Lopes (Universidade Lusófona), o Cinema Ideal e as piscinas da Penha de França. O C7nema conversou com um dos diretores, Carlos Ramos, não apenas sobre filmes, mas sobre o impacto político do certame, a importância das redes de festivais de cinema, da crítica e do papel da inteligência artificial na sociedade.
A retrospectiva Mockumentary, a estrela da companhia
A secção especial Mockumentary, operada em parceria com a Cinemateca, é uma das “estrelas” da edição. No total, 13 longas-metragens e cinco curtas compõem uma programação incrivelmente eclética — que passa por projetos surpreendentes do cinema mudo (Häxan (1922)) até obras mais recentes. Nessa discussão sobre formas de abordar o que é real e o que pode não ser, há lugar para mockumentaries fundamentais, como This Is Spinal Tap (1984) e Real Life (1979), passando por obras-primas como Zelig (1983), petardos de fundo social como Las Hurdes (1933), de Buñuel, e Ilha das Flores (1989), de Jorge Furtado, e obras incontornáveis do terror, como The Blair Witch Project (1999) e REC (2007) — este exibido em cópia de 35 mm na Cinemateca. O festival acerta particularmente naquele que é um dos títulos mais potentes a dialogar com a contemporaneidade da era Trump: Punishment Park (1971).
Conforme Ramos, a secção representa um momento atual da sociedade, em que muitas vezes se questiona o que é real e o que é falso. “Na política populista, por exemplo, toda a mentira pode tornar-se verdade”, observa. O recente caso de um agente do ICE a disparar contra uma mulher, para depois surgir uma defesa do governo que contraria o que todos veem nas imagens, é o exemplo mais chocante e mais óbvio.
É aqui que entra o filme citado de Peter Watkins: Punishment Park (1971) é uma obra impressionante, realizada em 1971, que trabalha com a ideia do governo Richard Nixon a punir dissidentes através de uma caçada no deserto, onde os presos são soltos e têm uma hora até que os “caçadores” (“snipers”, polícias) saiam no seu encalço. O filme é fortíssimo e foi totalmente banido na época; hoje, a sua atualidade em relação à era Trump é bastante evidente.
IndieLisboa e posicionamento político
A conversa evolui para o posicionamento político do IndieLisboa. De acordo com o codiretor, a relação com a política é inevitável: tudo é político. “A forma como o festival se posiciona, até em comparação com o DocLisboa — que tem uma postura mais politicamente ativa — mostra uma diferença clara. No IndieLisboa, a política está mais presente na programação do que em comunicados ou nas redes sociais”.
Houve momentos de pressão, sobretudo em situações-chave como o genocídio na Palestina, mas o festival nunca respondeu através de comunicados. “A posição do Indie não passa por aí. A direção é composta por várias pessoas, e há sensibilidades diferentes.”
O posicionamento existe, mas manifesta-se nas obras. Em relação à Palestina, há exemplos claros. “Fomos dos primeiros a fazer uma abordagem da obra de Kamal Aljafari, há dois anos. Também foi o caso da retrospetiva dedicada a Sarah Maldoror.”

Nesta edição, temos obras como Return to al-Ma’in, associado ao coletivo inglês Forensic Architecture, que investiga acontecimentos que remontam a 1948, com sobreviventes da expulsão palestiniana. O filme estabelece ligações com o presente — nomeadamente com infraestruturas e caminhos utilizados então e que voltam a surgir no contexto atual da ocupação.
Na competição internacional, há também Intersecting Memory, de Shayma’ Awawdeh, que não pôde estar presente no festival por não conseguir sair da Cisjordânia devido à guerra. O filme cruza imagens mediáticas com registos em cassete feitos por habitantes locais, criando um retrato da banalidade da violência e da tristeza quotidiana. É um trabalho visualmente muito impactante e profundamente duro.
As redes de festivais e a circulação de filmes
Uma das “Lisbon Talks” do festival é dedicada às redes de festivais — cada vez mais importantes num contexto de ultraprodução de obras que depois têm dificuldade em circular.
Carlos Ramos relata que, se a quantidade de filmes é enorme, o que se levanta é a questão de como circulam e são divulgados. O principal problema continua a ser a exibição: o festival é uma das formas de dar visibilidade, mas o mais importante é que os filmes não “desapareçam” ali — e a verdade é que muitos acabam por desaparecer após a passagem pelos festivais.
Em Portugal, nem sequer se produzem tantos filmes assim, mas mesmo esses têm dificuldades em chegar às salas. Há casos em que estreiam dois ou três anos depois de concluídos. O problema é estrutural: faltam salas de Cinema, há concelhos inteiros sem uma sala num raio de 50 km, e muitas das que existiam desapareceram — em 22 anos, perdeu-se uma parte significativa da rede exibidora. Hoje, espaços como a Culturgest e o São Jorge funcionam como acolhimento pontual, enquanto o Ideal e o Fernando Lopes mantêm exibição regular.
Neste contexto, as redes de festivais tornam-se fundamentais. O IndieLisboa faz parte de três redes apoiadas pelo programa Europa Criativa, que incentiva a circulação de cinema europeu. Uma delas é a Smart 7, dedicada a longas-metragens, que junta festivais como Thessaloniki, Vilnius e New Horizons. A ideia passa pela troca de conhecimento e pela criação de uma competição anual com sete filmes — um de cada país de menor produção — que circulam por todos os festivais da rede, com o objetivo de alcançar mais público.
Há também uma rede europeia de curtas-metragens, que responde a um problema ainda maior: a quase inexistência de distribuição para este formato. Foi criada uma plataforma onde são programados cerca de 150 filmes por ano, oferecendo uma alternativa de circulação.
Por fim, existe a rede Nexus, focada na formação de públicos, com trabalho junto de escolas e universidades, incluindo uma componente pedagógica e a criação de conteúdos educativos.
A crítica de cinema morreu, vivam os críticos!
Esse é o título de outro dos painéis da “Lisbon Talks”. Carlos Ramos explica que o debate parte da exibição do filme Não Desviar o Olhar, de Júlio Alves, que acompanha quatro críticos. A partir desse ponto, pretende-se criar um espaço de discussão provocatório sobre se ainda existe lugar para a crítica.
“Do ponto de vista do consumo, o espaço dedicado à cultura nos media tradicionais diminuiu bastante. A crítica deslocou-se em parte para o online, onde continua a encontrar formas de se reinventar — não desaparece, mas transforma-se. Ainda assim, o espaço físico nos media tradicionais encolheu e passou a competir com outras áreas, como a música ou o teatro”, observa. “O painel surge assim como uma provocação: afinal, o que está a acontecer com a crítica?”
O fantasma na máquina e a Inteligência Artificial
Por fim, outro documentário, Ghost in the Machine, serve de ponto de partida para um debate sobre o seu impacto na sociedade. A conversa, que decorre após a exibição, aborda tanto perspetivas académicas como artísticas. É um tema recorrente, em torno do qual têm surgido debates frequentes, muitas vezes marcados por um certo grau de especulação.

