Os Bárbaros do Universo

(Fotos: Divulgação)

Algures na pequena cidade de Cross Plains, no centro do Texas, havia uma casa de tábuas brancas e janelas que se abriam para um relvado impecavelmente cortado. Uma dessas janelas era do quarto onde Robert E. Howard (1906-1936) passava horas na companhia da sua máquina de escrever. Quando olhava para o relvado, talvez o imaginasse como uma vasta planície onde costumava situar os seus contos de fantasia.

No Halloween de 1931, publicou um conto chamado “People of the Dark”, que retratava pessoas que se lembravam das suas vidas passadas. Uma delas recordou uma encarnação onde era um guerreiro bárbaro de cabelo negro que ondulava ao sabor do vento, enquanto cavalgava por paisagens virgens em busca de novas aventuras. Venerava uma divindade chamada Crom. O seu nome era Conan.

Um ano depois, publicou um conto na revista Weird Tales dedicado a essa personagem. O primeiro de muitos. Conan deixou de ser uma recordação e passou a protagonizar muitas das histórias que Robert vendia às revistas baratas de fantasia, conhecidas como pulp magazines.

Robert queria escrever sobre temas épicos da Era clássica e medieval, mas não queria carregar o fardo da pesquisa histórica, que lhe ocupava tanto ou mais tempo do que a escrita. Por isso, em vez de estar sempre preocupado com anacronismos ou imprecisões cronológicas, decidiu criar a sua própria Era, a Hiboriana, situada algures após a destruição de Atlântida e antes do aparecimento de qualquer civilização conhecida. Eram os tempos das trevas, onde povos bárbaros se conquistavam uns aos outros, sob a força da espada e da feitiçaria. Existia uma terra, particularmente selvagem e montanhosa, que se chamava Ciméria. Era a terra de Conan.

O autor morreu em 1936, sem imaginar que algumas décadas depois a sua personagem iria fazer parte do universo da Marvel. A banda desenhada “Conan, o Bárbaro” saiu para as bancas em 1970. Esgotou em algumas cidades, ganhou prémios, tornou-se um ícone.

No início dos anos 80, começou a falar-se numa adaptação cinematográfica. Oliver Stone foi chamado pela Paramount para escrever o argumento. O conceito inicial era uma história de vingança, onde um jovem bárbaro decide vingar a morte dos pais às mãos de um feiticeiro, líder de um poderoso culto. Stone transformou essa premissa num filme de quatro horas passado num futuro pós-apocalíptico onde Conan enfrenta uma horda de mutantes.

A Paramount não gostou particularmente da ideia, nem dos custos que ela acatava (duplicava o orçamento) e abandonou o projeto, que acabou por ser adoptado pelo produtor Dino De Laurentiis (1919-2010) e pela Universal, com John Milius na realização.

Milius, que desejava fazer um filme épico desde que vira “Vikings” em 1968, rescreveu o argumento e deu-lhe um tom muito próprio. Via o filme como uma opera, com pouco diálogo e com a imagem e a música a contar a história. Para tal, contratou o compositor grego Basil Poledouris (1945-2006) e um ator desconhecido com sotaque austríaco chamado Arnold Schwarzenegger. A aposta correu bem. A música de Poledouris quase falava, expressava energia e emoção e misturava-se bem com a fria e intimidante presença de Schwarzenegger.

Milius fez o filme que visionava. Violento, cru, árido nas emoções, como os tempos que se viviam, sombrios, aterradores mas excitantes ao mesmo tempo e a despertar desejos de aventuras heróicas por paisagens sempre com segredos por desvendar. “Conan, o Bárbaro” (1982) quadruplicou em receitas o seu orçamento. E alcançou o estatuto de filme de culto.

A saga Conan tinha sido pensada como uma trilogia e o sucesso do primeiro filme antecipou o planeamento do segundo. Numa das reuniões, a Universal surpreendeu Milius. Queriam fazer um filme mais familiar, menos violento, salpicado com momentos de humor em vez de sangue. Milius contestou e saiu. Schwarzenegger, como o seu contrato contemplava a sequela, acatou a decisão, sob protesto.

A produção teve algumas coincidências – o realizador escolhido foi Richard Fleischer, que tinha realizado o filme “Vikings” que, por sua vez, inspirara Milius a realizar “Conan, o Bárbaro” – e até ironias: Wilt Chamberlain, ex-jogador da NBA com 2.16 metros de altura que tinha afirmado, publicamente, ter tido sexo com mais de 20 mil mulheres, integrou o elenco e a sua personagem estava encarregue de proteger a virgindade de uma jovem princesa.

E assim, no final de 1984, estreava em Portugal “Conan, o Destruidor”. Vi-o no cinema e só depois vi o anterior, já em vídeo. E, mais uma vez, deparo-me com aquele fenómeno engraçado que tanto se tem manifestado ao longo dos anos. Na altura, aos olhos entusiasmados de um miúdo de oito anos, este era, de longe, o melhor filme do Conan. Era mais leve, dinâmico, divertido. “O outro é lento, é mais pesado, sombrio e muito parado, é uma seca”, pensava. Esse olhar foi-se transformando e amadurecendo e hoje, a visão é oposta. O que outrora me desmotivava, agora enriquece-me a experiência cinematográfica. Já a sequela, é maioritariamente a nostalgia que a mantém viva na minha memória.

Entretanto, o sucesso da saga Conan fez florescer mais filmes sobre essa temática que mistura guerreiros bárbaros, espadas, magia e monstros. Em 1985, surge “Kalidor, a Lenda do Talismã” (Red Sonja), que volta a reunir um conto de fantasia de Robert E. Howard, o realizador Richard Fleischer e Arnold Schwarzenegger. Foi também a estreia na sétima arte da atriz dinamarquesa Brigitte Nielsen que, curiosamente, nesse ano casou com o grande rival de Schwarzenegger no cinema de ação, Sylvester Stallone. Nesse mesmo ano, também interpretou a mulher do adversário de Stallone em Rocky IV (confuso? Eu sei!).

O filão dos filmes de bárbaros dos anos 80 inspirou até o realizador italiano Ruggero Deodato – autor do infame “Holocausto Canibal” (1980) – que reuniu dois gémeos culturistas e lhes atribuiu o protagonismo em “The Barbarians” (1987), cujo trailer aparecia, invariavelmente, em todos os filmes da produtora Cannon que se alugavam no videoclube.

E chegou a altura de perguntar: Onde raio está a ligação nostálgica? Para isso, temos de recuar a 1980, ao filme “Conan, o Bárbaro” e a um dos meus brinquedos preferidos, os “Masters do Universo”. Ambos estão umbilicalmente ligados.

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