Longa-metragem de encerramento do 27.º BAFICI, Power Ballad (cujo título em português será Hit Para Dois) tem o perfil daqueles filmezinhos leves, eficazes, que Hugh Grant fez em abundância, como Music and Lyrics, mas sem o componente romântico, temperado por um realismo por vezes áspero. Não fosse a assinatura de John Carney — o responsável por Once — seria difícil despertar interesse numa maratona de autoralidades como a do festival anual de Buenos Aires. Carney ganha-nos, pouco a pouco, pela sua distância face a fórmulas de êxito imediato… e por Paul Rudd. Irlandês de Dublin, filma a sua pátria com humor autoirónico, multiplicando pequenas piadas sobre hábitos locais (“nunca vi ninguém na Irlanda recusar bebida”, ouve-se, num momento crucial). As autocríticas não anulam, ainda assim, o modo como o realizador celebra o seu país, numa narrativa atravessada pela América, com passagens por Los Angeles, onde a paternidade surge como instância (analgésica) de amor, embora não seja o eixo central. Esse eixo, como é habitual em Carney, é a produção musical em si, nos seus declives e picos, sempre observada a partir de bastidores conturbados. Basta lembrar o seu ótimo Begin Again, nomeado ao Óscar pela canção Lost Stars, na voz de Keira Knightley.

Apresentado no Festival de Dublin e no South by Southwest, Power Ballad é uma narrativa sobre a aura da criação artística, conceito que Walter Benjamin consagrou em A Obra de Arte na Época da Sua Reprodutibilidade Técnica (1935) e A Tarefa do Tradutor (1924), discutindo a origem da poética. A poesia nasce da fonte primária — o compositor — ou da fonte secundária, o intérprete ou executante, que, aqui, ganha a forma de um cantor de carácter dúbio?

Embora atravesse alguns códigos mais convencionais — sobretudo na representação da amizade e na construção de arquétipos da indústria musical —, Power Ballad aproxima-se das ideias benjaminianas e evita soluções fáceis, testando a emoção do espectador. Surge em cena um herói digno do cinema de Frank Capra: o músico Rick (Rudd, em excelente forma), que trocou os EUA pela Irlanda após se apaixonar por uma irlandesa, Rachjel (Marcella Plunkett). Com ela teve uma filha, Aja (Beth Fallon), agora em plena adolescência. Canta com talento e compõe com inspiração, mas ganha a vida a atuar com uma banda local em festas de casamento. Regressa a casa de manhã, trata das tarefas domésticas sem queixas, beija a companheira e encontra conforto na relação com a filha.

Tudo muda num casamento onde conhece o superstar Danny (Nick Jonas, um dos Jonas Brothers), antigo ídolo pop adolescente que tenta redefinir-se artisticamente após o percurso em boy bands. Os dois trocam ideias e tocam juntos até que Rick lhe mostra uma canção em desenvolvimento, dedicada à sua família. Danny apropria-se da composição e, meses depois, transforma-a num êxito. Ao perceber que não foi creditado, Rick reage: não tanto para reclamar direitos autorais, mas para confrontar o cantor com a sua falta de integridade — não apenas com um colega, mas com a própria música.

O que começa como um conflito ético evolui para uma jornada de companheirismo, impulsionada por uma personagem dinâmica: o guitarrista excêntrico Sandy, interpretado por Peter McDonald. É ele o alívio cómico que quase domina o filme com o seu carisma expansivo. A sua presença sublinha que Rick, ao contrário de Danny, não é um predador solitário, mas alguém que vive em comunidade e protege os seus. A sua trajetória pode não conduzir à fama imediata, mas afirma-se como um percurso de dignidade.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
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