Agosto de 1984, tinha acabado de fazer sete anos. Ainda decorriam as férias grandes e sempre que passava no centro de Águeda, ia ao cinema local – o Cineteatro São Pedro – espreitar os cartazes dos próximos filmes a estrear. Foi aí que o vi pela primeira vez. Um herói de chapéu e chicote, com olhar malandro e uma bolsa a tiracolo que eu imaginava recheada de artefactos valiosos.
Os cartazes eram dispostos em painéis verticais e eram complementados por uns quadrados ao fundo com imagens do filme. Havia cenas com selvas exóticas, templos sombrios e homens com espadas nas mãos e turbantes na cabeça. “Tenho de ver isto”.
O filme era para maiores de 12 anos, mas na altura, desde que a classificação não fosse M16 ou M18, e sendo acompanhados pelos pais, deixavam-nos entrar.
E então lá entrei, atravessando uma espessa cortina de veludo amarela, com um sorriso nos lábios. “Indiana Jones e o Templo Perdido” (1984, Steven Spielberg) foi o primeiro filme que vi com o famoso arqueólogo. Foram duas horas de puro fascínio, como se estivesse a viver todas aquelas aventuras.
Num dos dias seguintes, criei a minha própria aventura. Vivia numa pequena aldeia a quatro quilómetros da cidade, rodeada por pinhais que aos meus olhos pareciam florestas infinitas. Equipei-me com um chapéu de cowboy, um revólver de fulminantes, um cabo elétrico daqueles mais grossos, enrolado a fazer de chicote, uma corda a cruzar o tronco e a segurar um saco plástico, onde eu iria recolher todos os tesouros que encontrasse.
No mato havia imensos trilhos, que iam dar a terras de cultivo ou a outras povoações. Nas infâncias daquele tempo havia liberdade para os percorrer, mas existia um perímetro que eu nunca tinha ultrapassado. Tinha chegado a hora! Havia um desejo de ir onde nunca tinha ido, descobrir onde aquele caminho levava, o que existia do outro lado daquele monte.
Escolhi um dos trilhos à sorte. Passo a passo, fui avançando, atento a tudo à minha volta. O som do vento a abanar a vegetação, o cheiro do capim, as cores do bosque. Quando, finalmente, senti que estava em território desconhecido, o ambiente alterou-se. Havia uma sensação de clandestinidade no ar. Deixara de ser um pinhal na minha aldeia. Era agora um destino longínquo e eu não fazia ideia do que podia lá encontrar. O próprio bosque parecia mais silencioso, só se ouvia o ruído das minhas sapatilhas na terra. Cerca de 30 ou 40 minutos depois, ouvi um barulho súbito nas copas das árvores. Olhei para cima, as folhas ainda abanavam. Estive alguns instantes a tentar descortinar o que se passava, até o voo rasante de um corvo me arrepiar e esclarecer ao mesmo tempo.
Pouco depois, avistei uma torre arcaica de madeira à minha direita, com três ou quatro metros de altura. Do outro lado do caminho, havia um poço de pedra, coberto por uma grade de ferro. Algumas dezenas de metros à frente, o caminho desaguava numa pequena povoação, com sete ou oito casas de pedra. Não entrei lá. Escondi-me atrás de um arbusto e fiquei a observar. “Seriam esses ‘forasteiros’ amigáveis ou hostis?”, questionava-me, tentando dramatizar a situação e alheio ao facto de o forasteiro ser eu. Reparei numa senhora de lenço na cabeça que estava a escavar terra. “Estará a enterrar um tesouro?”. Fiquei por ali vários minutos, a querer observar todos os detalhes do povo que tinha acabado de descobrir.
Por vezes ocorria-me o pensamento: “Será que vou encontrar o caminho de volta para casa?”. Mas a mera existência dessa dúvida parecia temperar ainda mais a aventura que estava a viver.
No ano seguinte, quando já tinha vídeo em casa, aluguei o primeiro filme da saga, “Os Salteadores da Arca Perdida” (1981, Steven Spielberg). Vi, viajei numa velhinha ITT ao Peru, Tibete e Egipto, revi. E passei a explorar todos os recantos do clube de vídeo em busca de cassetes deste género. Encontrei o “Em Busca da Esmeralda Perdida” (1984, Robert Zemeckis) e a sequela, “A Jóia do Nilo” (1985, Lewis Teague), onde o Michael Douglas era o aventureiro e Kathleen Turner a donzela em perigo, enquanto seguiam um mapa do tesouro nas selvas da Colômbia ou no deserto africano.
Entretanto, estreou no cinema “As Minas do Rei Salomão” (1985, J. Lee Thompson). Uma divertida paródia à saga Indiana Jones, com Richard Chamberlain de cinto de balas a tiracolo e pistola de pederneira à cintura, acompanhado por uma estreante (e apaixonante) Sharon Stone, ambos a explorar selvas africanas em busca das míticas minas do soberano do médio-oriente.
Algum tempo depois, encontraria no videoclube a sequela, “A Cidade Perdida do Ouro” (1987, Gary Nelson), já sem o realizador britânico nomeado para Oscar com “Os Canhões de Navarone” (1961) e sem grande parte da piada. Mas isso não impedia o filme de estar quase sempre “fora” na prateleira dos filmes disponíveis.
O filão dos filmes de aventureiros dos anos 80 foi amplamente explorado. Até Chuck Norris passou por lá em “Caminho de Fogo” (1986, John Lee Thompson), uma caça ao tesouro asteca nas selvas da América Central. “O filme tem a aventura de Indiana Jones e a comédia de Crocodilo Dundee”, disse na altura o ator. Até, imagine-se, Michael Dudikoff, o célebre Ninja Americano, enveredou no género com “O Rio da Morte” (1989, Steve Carver), uma aventura com piratas e canibais na Amazónia, em busca de uma cidade perdida Inca.
A década terminou onde tudo começou, na sala escura do cinema, com “Indiana Jones e a Grande Cruzada” (1989, Steven Spielberg), desta vez a reunir Harrison Ford e Sean Connery, numa imortalizada viagem pela Europa e pela Jordânia.
Desde então, muitas destas cenas permaneceram adormecidas na minha memória e têm despertado nos momentos mais caricatos. Quando estive horas a negociar bugigangas em Marrakesh, lembrei-me do Indiana Jones e do ídolo de ouro desviado pelo arqui-inimigo Belloq e da sua frase: “Só há um sítio no mundo onde ele pode vendê-lo: Marrakesh”. No Museu de Londres, quando deparei com uma máscara azteca feita com mosaico turquesa e madrepérolas, imaginei-a feita de esmeraldas e enfiada num saco de linho preso à minha cintura, enquanto fugia das flechas de uma tribo exótica. Quando atravessei uma ponte suspensa de madeira e corda na selva de Niokolo-Koba, no sudeste do Senegal e já perto da fronteira com a Gâmbia, voltei atrás, agarrei num pau e recriei a famosa cena de “Indiana Jones e o Templo Perdido”. Só nunca tive oportunidade de recriar a cena do caldeirão de “As Minas do Rei Salomão”. Mas já dei por mim a arremessar coisas e a gritar “I’ve got it!”.
Mas a principal influência que estes filmes de aventureiros me deixaram é o desejo de descobrir sempre mais, o entusiasmo de ir além do que vemos e conhecemos, em busca de uma experiência nova, mesmo nos destinos mais próximos ou nos momentos mais quotidianos. Em todo o lado, há sempre algo novo que podemos vivenciar, se perscrutarmos com atenção o mapa da nossa espontaneidade. Talvez isso me tenha sido incutido naquela longínqua tarde de Verão. Ainda hoje não sei dar com o caminho que me levou ali. E tenho amigos de infância lá da terra que me garantem que não existe nenhuma aldeia no meio do mato.




