Dez anos depois da sua visceral estreia na longa-metragem com O Filho de Saul (Saul Fia, 2015), que lhe valeu um Óscar e o elogio de Steven Spielberg (“É o melhor filme que vi em anos”), László Nemes regressa com Órfão (Árva, 2026), um conto de amadurecimento centrado na reconfiguração política da Hungria durante a Guerra Fria. Sem recorrer ao dispositivo de planos-sequência com câmara colada ao corpo das personagens — marca distintiva do filme de 2015 —, Nemes opta aqui por uma estrutura clássica, em que a música dos irmãos Evgueni Galperine e Sacha Galperine assume protagonismo. A direção de fotografia de Mátyás Erdély, colaborador habitual, revela-se mais contida, enquanto a componente musical aproxima o filme de uma certa espetacularidade associada ao cinema histórico mais convencional. Há ecos de Hope and Glory (1987), sobretudo no modo como lida com os escombros do passado, embora sem o seu tom celebratório. Nemes permanece um cineasta intimista, mesmo quando encara a História de frente.
Antes, em 2018, o austero Sunset (Napszállta) — distinguido com o Prémio FIPRESCI na Festival de Veneza — já ensaiava essa contenção que agora se afirma plenamente. Prestes a apresentar Moulin (2026) na competição pela Palma de Ouro do Festival de Cannes, o realizador, nascido em Budapeste em 1977 e formado nos sets de Béla Tarr, parece ter suavizado a ferocidade da sua estreia. Essa viragem não implica perda de intensidade, mas antes um olhar mais meticuloso e sensível. Órfão inclina-se para um registo sentimental, roçando o melodrama ao construir uma relação distorcida de paternidade.
A interpretação notável de Grégory Gadebois como figura paterna possível para o protagonista, o jovem Andor Hirsch (Bojtorján Barabás), confere ao filme o equilíbrio necessário, oferecendo momentos de tensão emocional elevada. A sua composição evita o lugar-comum: evolui de uma presença inicialmente ameaçadora para uma figura complexa, marcada pela dor, mas também por uma inesperada empatia.
Filmado em 35mm em Budapeste ao longo de dez dias, em 2024, Orphan (título internacional) foi escrito por Clara Royer e Nemes a partir das vivências do pai do realizador durante a Revolução Húngara de 1956, quando forças opositoras reagiram ao domínio soviético da União Soviética. Na narrativa, Andor sonha reencontrar o pai desaparecido durante a Segunda Guerra Mundial, o que alimenta uma relação tensa com a mãe, Klára (Andrea Waskovics, em interpretação firme). Perdido entre inquietações e fantasias, o jovem cruza-se com Mihály Berend (Gadebois), o homem que escondeu Klára durante a guerra e que agora procura reconstruir uma ligação com ela — propondo inclusive assumir Andor como filho.
Berend surge inicialmente como uma ameaça para o rapaz, representando a possibilidade de substituição do pai ausente. A sua imponência física e influência social acentuam esse conflito. No entanto, à medida que a narrativa avança, o olhar do espectador transforma-se: não há violência explícita, mas sim um desejo de pertença, de reconstrução familiar. Nemes cristaliza essa tensão numa sequência marcante numa roda-gigante, onde a intimidade emocional substitui o confronto direto.
A montagem de Péter Politzer, em sintonia com a partitura dos irmãos Galperine, impede que o filme resvale para o excesso melodramático. Um sentimento de não pertença atravessa as ações do trio central — Andor, Berend e Klára —, consolidando o vigor de Nemes ao revisitar o passado para compreender uma Europa ainda assombrada pelos seus próprios fantasmas.




















