Num momento inesperado dos seus 102 minutos, após um arrastado primeiro segmento em que a trama engatilha-se, Sicko (título internacional de Auru) passa finalmente a fazer jus ao conceito de doença inscrito no seu título e envereda por um percurso onde o contágio do ódio se propaga como uma metástase. É difícil lidar com o teor de violência — sobretudo contra mulheres — mobilizado pelo realizador cazaque Aitore Zholdaskali na tentativa de construir um noir que retrate as moléstias morais da sua sociedade, ainda que com ambição universal. Notam-se ecos de Fargo (1996) e Blood Simple (1984), dos Joel Coen e Ethan Coen, na forma como o cineasta explora relações afetivas num contexto naturalista, onde a podridão social funciona como motor para um golpe contra o sistema de saúde e a segurança social.

O enredo inicia-se como a crónica de um mundo áspero, em que o amor de um casal à espera de um filho — a doce Tansholpan e o impulsivo Azamat — é posto à prova pelas dívidas acumuladas por ele, agravadas após um acidente rodoviário. Inventar uma doença surge como solução. Até aqui, o molde coeniano de fábula moral é evidente. Passados cerca de 40 minutos, o filme transforma-se: emerge um verdadeiro “filme de monstro”. O que se segue é uma escalada de brutalidade tecnicamente impressionante, que ultrapassa limites e parece contaminar o próprio dispositivo cinematográfico.

Dilnaz Kurmangali, no papel de Tansholpan (Tansho), revela-se uma descoberta — começa numa chave de candura, para depois expor uma força dramática que a aproxima do melodrama social mais cru. É a única fonte de calor num universo dominado por criminalidade e frieza institucional. Já Ayan Utepbergen constrói Azamat com precisão inquietante, deixando que a personagem deslize progressivamente para o descontrolo absoluto. A expectativa de redenção vai sendo anulada a cada nova queda.

Desesperado por dinheiro, Azamat convence Tansho a simular uma doença terminal e fabrica provas para angariar fundos destinados a um falso tratamento médico, através de financiamento coletivo. O esquema torna-se viral e atrai a atenção do submundo do crime, desencadeando uma espiral de violência. O que começa como um thriller de fraude evolui para um exercício de agressividade extrema, amplificado pelos enquadramentos claustrofóbicos da fotografia de Bagdat Argynov e pela montagem nervosa de Shalkar Taneke.

Essa virtuosidade técnica não oculta, contudo, um problema central: na ânsia de chocar, Zholdaskali deixa-se arrastar pela mesma lógica de excesso que consome as suas personagens. Falta distanciamento crítico na construção dramática, uma capacidade de gerar verdadeira tensão dialética. Que o mal pode vencer — como a realidade tantas vezes confirma — não é novidade. O problema reside em aceitá-lo num registo maniqueísta, sem o dissecar.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
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