Poucas campanhas comerciais, na história da publicidade, foram tão controversas — e, simultaneamente, tão bem-sucedidas — quanto um anúncio do Volkswagen Volkswagen Beetle, o Fusca, lançado em 1959, que proclamava “Think small!”, ou seja, pensar pequeno, pois, em certos casos, menos é mais. A estratégia da agência Doyle Dane Bernbach (DDB) para a indústria automóvel faz-se lembrar perante a sinergia entre a Blumhouse Productions, de Jason Blum, e a Atomic Monster, do realizador James Wan. Anunciada em 2024, esta parceria ganha forma — ainda que sem grande originalidade — em Lee Cronin’s The Mummy (2026), que revisita práticas de povos antigos, do Egipto ao México asteca, numa narrativa de iluminação trémula, mais próxima do thriller do que do horror. A evocação do tom de aventura do blockbuster A Múmia (1999), com Brendan Fraser, e das suas sequelas, deve ser descartada. É mais pertinente encontrar afinidades com o drama histórico Al-mummia (1969), de Chadi Abdel Salam, numa breve — mas urgente — reflexão sobre património e identidade nacional.

Contando com Jason Blum na produção, Lee Cronin’s The Mummy (2026) teve um orçamento bastante inferior à média norte-americana, fixando-se nos 20 milhões de dólares. O produtor raramente ultrapassa esse patamar. O malogrado The Exorcist: Believer (2023) custou um pouco mais — cerca de 30 milhões —, mas recuperou o investimento, alcançando 137 milhões de dólares em receitas. Por norma, o cinema da Blumhouse “thinks small”, como sugeria o célebre anúncio da Volkswagen: investir pouco, apostar em protagonistas inspirados e obter elevados retornos. Lee Cronin’s The Mummy (2026), bem sustentado pela espanhola Laia Costa e, sobretudo, pelo irlandês Jack Reynor, arrecadou cerca de 34 milhões de dólares nos seus primeiros três dias de exibição.

Tal como Blum, também James Wan possui vasta experiência em produções de orçamento contido. Responsável por receitas globais estimadas em 4 mil milhões de dólares, somando os filmes que realizou desde o sucesso inesperado de Saw – Enigma Mortal (2004), Wan teria todas as razões — comerciais, não necessariamente artísticas — para se concentrar em grandes produções. Contudo, os seus projectos mais recentes, como Malignant (2021) — uma fusão entre Suspiria (1977), de Dario Argento, e Sisters (1972), de Brian De Palma —, e agora esta obra de Lee Cronin, demonstram a sua inclinação para dar visibilidade a novos talentos.

Ghost Train (2013) revelou Cronin como um promissor artesão do género, ao conquistar o Méliès d’Argent para Melhor Curta-Metragem Fantástica Europeia. A sua primeira longa, The Hole in the Ground (2019), estreou-se no Festival de Sundance com aclamação crítica e valeu-lhe uma nomeação ao Saturn Award de Melhor Realizador Revelação. Foi, no entanto, o sucesso de bilheteira de Evil Dead Rise (2023) — produzido com 12 milhões de dólares e responsável por 147 milhões em receitas — que o consolidou como um nome a seguir no horror contemporâneo, capaz de conjugar violência gráfica com temáticas mais ambiciosas. É esse o caminho que trilha ao revisitar a mitologia de The Mummy, nascida na era clássica dos monstros da Universal Pictures, nos anos 1930, com Boris Karloff.

Cronin afasta-se dos tropos visuais do filme de 1932 e aproxima-se antes das influências dos anos 70, nomeadamente The Exorcist (1973), de William Friedkin, e The Omen (1976), de Richard Donner, apostando na possessão demoníaca e na lógica profética. Em cena, Katie, a filha mais nova do jornalista Charlie Cannon (Reynor), desaparece no deserto durante uma reportagem no Egipto, sem deixar rasto, mergulhando a mãe, Larissa (Laia Costa), no desespero. Não há pirâmides nem grandes panorâmicas do Nilo: tudo é filtrado por um olhar intimista sobre uma família em rutura — incluindo os irmãos da jovem, Maud e Sebastián (Shylo Molina e Billie Roy). Oito anos após o desaparecimento, a família é surpreendida com o regresso de Katie, mas o que deveria ser um reencontro feliz transforma-se num pesadelo, uma vez que um espírito maligno a acompanha, com intenções letais. A jovem fora raptada para um ritual de mumificação e é resgatada de um sarcófago.

O motivo do seu cativeiro reside na crença de que um demónio ancestral, Nasmaranian, deve ser aprisionado num corpo mumificado, envolto em ligaduras com inscrições sagradas capazes de conter o seu poder. Ao ser libertada, desencadeia-se uma ameaça iminente. Os Cannon descobrem a verdade com a ajuda de um egiptólogo, o professor Bixler (Mark Mitchinson), e da detective egípcia Dalia Zaki, que acompanhou o caso anos antes — personagem interpretada por May Calamawy com assinalável realismo. Trata-se da figura mais ousada do filme, não só por desafiar convenções sexistas dentro das forças policiais do mundo árabe, mas também por evitar os estereótipos habituais do heroísmo no cinema de terror.

Wan e Blum concedem a Cronin liberdade suficiente para evitar “mais um” filme de múmias, propondo antes uma celebração do multiculturalismo — incluindo o cinéfilo. Se Bixler evoca a linhagem de Van Helsing e de outros investigadores do sobrenatural, o núcleo familiar dos Cannon destaca-se pela sua resiliência e coesão pouco convencional. Entre eles sobressai a matriarca, interpretada por Verónica Falcón, no papel da devota Carmen.

A direcção de fotografia de Dave Garbett não se distingue particularmente pela inovação, embora revele competência na articulação com a tradição do género. Já a montagem de Bryan Shaw utiliza o jump scare com eficácia invulgar. Uma sequência de ataque de chacais figura entre os momentos de maior tensão.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
a-mumia-de-lee-cronin-recicla-o-monstro-classicoCronin afasta-se dos tropos visuais do filme de 1932 e aproxima-se antes das influências dos anos 70, nomeadamente The Exorcist (1973), de William Friedkin, e The Omen (1976), de Richard Donner, apostando na possessão demoníaca e na lógica profética.