O fantasma das minhas casas assombradas

(Fotos: Divulgação)

Na primavera de 1973 a família Smurl mudou-se para a sua nova casa. Tinha dois andares – um pintado de branco e o outro de vermelho – e ficava num bairro tranquilo de classe média na Pensilvânia. No ano anterior tinham perdido tudo no furacão Agnes e estavam ansiosos por um recomeço. Quando estacionaram e saíram do carro, sentiram a aragem morna de um céu cheio de azul, ouviram o cântico dos pássaros nas árvores. Era um bom presságio para uma nova vida.

Depois veio o Inverno. Os céus tornaram-se um pouco mais cinzentos e a aragem um pouco mais fria, fora e dentro de portas. Em Janeiro de 1974 surgiu uma mancha estranha no tapete da sala. Os pais, Jack e Janet, ficaram intrigados, mas talvez fosse obra das filhas pequenas (Dawn e Heather). Não sabiam ainda que era o primeiro indício de uma vida de terror.

Alguns dias depois, começaram a ouvir-se barulhos na casa durante a noite. “Talvez seja a velha canalização”, pensaram. Afinal de contas, a casa tinha sido construída em 1896. No entanto, não conseguiram encontrar uma explicação racional para os móveis e paredes que surgiam arranhados de um dia para o outro. Descreviam as marcas como se fossem feitas por “garras de um animal selvagem”. Depois foram rádios que começaram a tocar sozinhos, gavetas que começaram a aparecer abertas, passos que se começaram a ouvir nas escadas. Quando a filha mais velha começou a ver pessoas a pairar no teto do seu quarto, a família Smurl rendeu-se às evidências: Estavam a viver numa casa assombrada.

Presenciei tudo isto na pequena televisão do meu quarto de adolescente. Não me lembro se “Sombras Misteriosas” (The Haunted, 1991) foi o primeiro filme que vi sobre casas assombradas. Mas sei que foi o que me assustou mais. Por um lado, porque retratava uma (alegada) história verídica. Foi um dos primeiros casos investigados pelos pesquisadores do paranormal Ed and Lorraine Warren, recentemente popularizados em “The Conjuring” (2013).

Por outro, pelo seu ambiente. Era um filme de baixo orçamento, despojado de efeitos especiais, que apostava em manifestações simples em objetos quotidianos e que se tornava, talvez por isso, ainda mais real. Uma porta que range ao se fechar sozinha, um lençol que vai sendo puxado devagarinho durante o sono, uma gaveta que se abre misteriosamente, uma sombra escura que aparece num corredor. Quando saí do quarto, sugestionado pelo visionamento, era assustadoramente fácil passar por estes objetos e zonas da minha casa e imaginar estes acontecimentos a desenrolarem-se perante os meus olhos.

Algumas semanas depois, vi um outro filme com este mesmo tom e ambiente. “O Ente Misterioso” (The Entity, 1982), igualmente inspirado em acontecimentos verídicos e que retrata a história de Doris Bither (no filme chama-se Carla Moran), uma mãe solteira com quatro filhos que é atormentada por um espírito na sua casa em Los Angeles. Há sequências que ainda hoje relembro com arrepios na espinha. Martin Scorsese considera-o um dos 11 filmes mais assustadores da sua vida.

“Amityville”

Claro que na altura acabei por ver todos os clássicos, como “Amityville” (1979), “O Exorcista” (1973), “The Changeling” (1980) – outro filme atmosférico numa mansão vitoriana, onde uma mera bola saltitante me gelava os ossos – ou claro, “The Poltergeist” (1982), que durante muito tempo me fez temer o “formigueiro” das televisões, um efeito extinto nos ecrãs modernos. Aliás, foi já num LCD que “White Noise” (2005) me veio relembrar isso.

Com o passar dos anos, vi autênticas obras-primas dentro desse género, como “The Shining” (1980), “The Others” (2001) ou “El Orfanato” (2007). Filmes com uma linda aura encantada, como “The Crimson Peak” (2005). Um filme português com uma atmosfera que me deixou cativo, “Coisa Ruim” (2006). E filmes verdadeiramente arrepiantes, como o japonês “Ju-On” (também conhecido como “The Grudge”, 2002), que não se limita a introduzir sustos súbitos, mas aposta em sequências que prolongam as sensações aterrorizantes. Não caiam na tentação de optar pelo remake americano de 2004, esqueçam que ele existe. Entretanto voltaram a tentar adaptá-lo este ano, mas desconheço o resultado.

E claro, talvez o filme mais assustador deste tema do século XXI, o já referido “The Conjuring”, que em pleno Verão me deixou congelado na cadeira numa sala de cinema de Viseu. Lembro-me de estar numa esplanada na zona histórica da cidade a conversar sobre o filme e, apesar da noite quente, continuar a sentir arrepios nas costas. O sucesso do filme criou todo um universo à sua volta, com várias sequelas e prequelas.

Embora, aos meus olhos, esse seja o filme mais assustador, a melhor história com uma casa assombrada como palco é outra. Foi escrita em 1959 por Shirley Jackson e intitulada “The Haunting of Hill House”. A escritora americana morreu seis anos depois, assolada por graves crises de ansiedade e num estágio avançado de agorafobia, sem fazer ideia que o seu livro viria a ser uma das principais inspirações de Stephen King e que seria considerado pelo Wall Street Journal “a melhor história de fantasmas algum dia escrita”.

“The Haunting of Hill House”

Essa história inspirou dois filmes, um em 1963 e outro em 1999, ambos com o mesmo título: “The Haunting”. Gostei do primeiro, nem tanto do segundo. Quase 20 anos depois, tropecei na terceira adaptação. Uma série de 10 episódios da Netflix que assume o título do livro. Vi-a de uma assentada – ainda por cima durante um fim-de-semana chuvoso – e foi uma experiência extraordinária. Um argumento muito bem delineado, mais indutivo do que explícito (como a maioria das boas histórias assustadoras) e uma premissa que é desenrolada de uma forma cada vez mais interessante. Tudo parece ser meticuloso, a realização, o ambiente, a iluminação. Adoro a luz com que decorre a história, em particular nas cenas na mansão. Tons, luz, sombra, conseguiram um equilíbrio perfeito para gerar um ambiente delicioso que serve de palco para uma história que é tão fantasmagórica quanto humana e tão assustadora quanto bela.

Após dois longos anos, os criadores lançaram este mês uma nova história, “The Haunting of Bly Manor”, que reservei para o fim-de-semana de Halloween.

Não é de espantar que todos estes filmes e todas estas histórias me tenham despertado, desde cedo, um fascínio por casas com aspeto ou reputação de serem assombradas, geralmente abandonadas e decoradas com histórias sombrias. Percorri várias. Mansões, antigos sanatórios, aldeias abandonadas, castelos. No entanto, tal como a recordação cinematográfica mais primordial pertence ao filme com que iniciei este texto, a memória mais vívida dessas explorações pertence à primeira casa com fama de assombrada onde tive coragem de entrar. E foi também o primeiro grande susto da minha vida. Tinha 12 anos. Só trinta Invernos depois contei essa história. Podem conhecê-la aqui.

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