Na década de 80, os videoclubes foram invadidos por filmes de ninjas. “A Vingança do Ninja”, “Ninja a Máquina Assassina”, “Ninja Programado para Matar”, “A Sombra de um Ninja”, “Ninja Terminator”, “O Super Ninja”, “Ninja, o Imbatível”, “Esquadrão Ninja”, “O Segredo do Ninja”, “A Raiva do Ninja”. Havia títulos para todos os gostos. Mas quem eram esses assassinos letais de capuz negro que monopolizavam grande parte da secção de ação?
Ninjas (ou shinobi) eram agentes de espionagem ou mercenários assassinos do Japão feudal. Distinguiam-se dos samurais porque não seguiam os seus escrupulosos códigos de honra. Faziam, precisamente, o contrário e aproveitavam todas as vantagens possíveis. Eram furtivos, mestres na criação de manobras de distração, camuflavam-se na natureza ou no meio envolvente, atacavam de forma silenciosa, quase invisível, com recurso a um manancial de armas brancas: Katanas, estrelas arremessáveis (shuriken) e foices afiadas presas a correntes de ferro (kusarigama).
Havia uma mística misteriosa em redor das suas histórias, que conquistou o imaginário popular do Japão. Os contos de ninjas eram tema frequente nas conversas entre avós, pais e filhos, sentados em redor das suas mesas tradicionais (chabudai). O entusiasmo dava azo a fantasias e lendas que ainda hoje estão bem enraizadas em terras nipónicas: O dom da invisibilidade, o controlo de todos os elementos naturais, que incluía a habilidade de correr sobre a água e até a capacidade de se desdobrarem em diversos corpos.

Nos anos 60, o cinema japonês foi inundado por uma onda de filmes sobre o tema. Tão grande que atravessou o Pacífico e, vinte anos depois, atingiu Hollywood. Quer dizer, os ninjas surgiram pela primeira vez nos EUA num filme de James Bond, “007 – Só se Vive Duas Vezes” (1967), mas o primeiro filme inteiramente dedicado ao tema surgiu em 1981: “Ninja, o Imbatível”, cujo título original – “Enter the Ninja” – foi estrategicamente escolhido para capitalizar o sucesso de “Enter the Dragon” (1973), filme com Bruce Lee que, até ao início da década de 80, arrecadou mais de 100 milhões de dólares só nos cinemas americanos.
Quando surgiram em Portugal, os filmes de ninjas rapidamente dominaram o imaginário de muitas das infâncias e adolescências da altura. Aconteceu comigo. A sua natureza oculta, misturada com as acrobacias de artes marciais, despertava-me imensa curiosidade. Por isso, devo tê-los alugado todos no videoclube, até os mais manhosos. Na realidade, eram todos manhosos! O melhorzinho era “O Ninja Americano” (1985), que cimentou a dupla de ação Michael Dudikoff / Steve James (que chegou a protagonizar outros filmes) e teve cinco sequelas. O segundo filme (1987) que, curiosamente, foi o primeiro da “saga” a ser lançado em Portugal, era o meu preferido e devo tê-lo visto, sei lá, umas 15 vezes.

Sonhava com aquelas estrelas ninjas, tão exóticas, tão inacessíveis (nem imaginava que 30 anos depois seria possível encomendá-las na Internet; na realidade, nem imaginava que ia existir internet). Por vezes, um amigo mais habilidoso tentava adaptar uma peça mecânica ou até de decoração (desde que fosse de metal e pontiaguda) que encontrava por casa, mas nunca era a mesma coisa. Também desejava ter um daqueles fatos (que o irmão mais velho de um colega da escola garantiu que conseguia encomendar do japão se eu lhe desse cinco contos, provavelmente a primeira tentativa de fraude da minha vida; infrutífera, felizmente). Cheguei a fazer vários quilómetros a pé até uma povoação vizinha, porque tinha ouvido falar que havia lá um café com uma máquina arcade com o jogo “Dragon Ninja” (o jogo era péssimo mas, mesmo assim, ainda me desviou duas ou três moedas de 100 escudos sem eu dar conta).
Era também muito comum o tema surgir nos recreios da escola. Descrevíamos o último filme que tínhamos visto, tentávamos reproduzir golpes, esfolávamos joelhos. E, por vezes, planeávamos missões clandestinas nos edifícios escolares.
Aconteceu numa dessas tardes. Tinha 10 anos e estava no meu primeiro ano do ciclo. Durante o recreio, o meu melhor amigo – que detestava futebol – vá-se lá perceber porquê decidiu experimentar dar um remate. Resultado: a bola foi parar ao telhado da escola. “E agora, meu?”. Pedir ao contínuo não era uma opção, pois constava-se que ele ficava com todas as bolas que resgatava. Deixa-la lá também estava fora de questão. Era uma London, a bola mais durável de todas, que perdurava uma eternidade sem descoser ou perder os quadrados de couro. Não lhe disse para se desenrascar sozinho. Juntos íamos delinear um plano. “Afinal de contas, somos ninjas”.
E o plano era simples. Íamos ficar escondidos num canto qualquer da escola, após a última hora de saída. Quando já todos tivessem ido embora, usaríamos a nossa “agilidade de ninjas” para escalar os três metros de altura do edifício.
Quanto tocou para sair, encontrámo-nos à saída da sala. Não me lembro da autoria da ideia, mas alguém se lembrou de “sincronizar os relógios”. Arregaçámos as mangas e estivemos ali algum tempo a tentar que os numerais do Casio e do Timex andassem, exatamente, ao mesmo ritmo. “Se nos tivermos de separar para fugir do contínuo, encontramo-nos no sítio X dentro de 10 minutos”. “Ok”. Eram quase 18 horas e era Inverno, anoitecia cedo. “Perfeito”; “Um ninja move-se melhor na escuridão“. Seguimos devagarinho até ao edifício-alvo, movidos por um excesso de dramatismo. Quando víamos o continuo à distância, atirávamo-nos para o chão ou contra a parede junto à esquina dos edifícios. “Um ninja desaparece nas sombras”.
Quando chegamos ao edifício certo, aconteceu algo estranho. Ele parecia um pouco mais alto na prática do que aparentava na teoria. “Lembras-te daquela cena onde eles se encostam à parede com os braços esticados e fazem uma escada humana?”. Não resultou! “Sobe para os meus ombros e tenta alcançar as telhas”. E por pouco não alcançámos; o cimento no chão!
“E se voltarmos amanhã com uma corda agarrada a algo a fazer de gancho?”. “É capaz de funcionar”. E assim, com os relógios sincronizados nas 19 horas, cancelámos a operação, ainda a tempo de não nos metermos em sarilhos em casa. No entanto, havia um derradeiro obstáculo: o portão estava trancado. “O gajo já foi embora, e agora?”. Íamos ter de saltar o gradeamento, que era alto e pontiagudo. “Um ninja domina objetos cortantes”. Com entreajuda e com os casacos a tapar as pontas do gradeamento, lá conseguimos alcançar a rua. “Ser ninja até cansa um bocado, não cansa?”.
No dia seguinte, sem gancho e sem grande vontade de prolongar “a operação”, resolvi arriscar tudo. “Estás a brincar com o fogo”, alertou um dos colegas. “Um ninja domina os elementos”. Encarei a madeira durante alguns segundos, até lhe tocar. Uma, duas, três vezes. Os meus “sentidos de ninja” permitiram-me ouvir passos do outro lado. A porta abriu-se. Enquanto me olhava nos olhos, o contínuo fez um gesto com o rosto a substituir a pergunta: “o que tu queres?”. Contei-lhe o que tinha acontecido à bola. Virou-me as costas. Ouvi ruídos de movimentação frenética e objetos metálicos lá dentro. Regressou com um escadote, subiu ao telhado, deu-me a bola e sorriu.
Esta missão final revelar-se-ia um importante estágio na minha evolução nesta arte marcial milenar. “Um ninja é imune a boatos e assume sempre a responsabilidade de descobrir a verdade”.







