Num dos momentos mais conseguidos de Crawlers, Serena (Matilda Lutz) vê Tarantula (1955), de Jack Arnold, na televisão enquanto, fora do ecrã, as aranhas já começaram a tomar conta do edifício onde ela está. Ángel Gómez Hernández, realizador de Voces (2020) e El Hombre del Saco (2023), não se limita à piscadela cinéfila pop habitual e brinca também com a posição do espectador, chegando a colocar a câmara dentro de um pacote de batatas fritas, onde uma aranha espera enquanto uma mão entra repetidamente à procura de mais um snack. Este “POV da aranha” é apenas uma das pequenas torturas de antecipação que o realizador andaluz preparou para o público, fazendo nisto uma declaração bastante clara sobre aquilo que Crawlers procura, ou seja, recuperar o prazer elementar dos filmes de criaturas, fazendo do quotidiano um território onde qualquer objeto, casa ou espaço comum de um prédio pode esconder uma (ou muitas) ameaças.
A genealogia destes filmes de criaturas vem de longe e, no que concerne aos artrópodes transformados em ameaça, é inevitável falar também de Them! (1954) e, claro, Arachnophobia (1990). Porém, Crawlers chega também depois de [REC] (2007) ter transformado um edifício numa armadilha encerrada ao mundo e, sobretudo, depois de Vermines, que, em 2023, num bairro dos subúrbios franceses, colocou aranhas venenosas num bloco habitacional degradado.
É precisamente por carregar tantas pegadas anteriores que se torna difícil encontrar em Crawlers algo de verdadeiramente novo, ou sequer particularmente relevante, para além da eficácia com que Hernández manipula uma das fobias mais reconhecíveis no mundo. Na verdade, o cineasta tira quase tudo do edifício e da forma como o compartimenta por entre corredores estreitos, elevadores, condutas, apartamentos sobreaquecidos e divisões mal iluminadas. Todos esses espaços tornam-se pequenas caixas de suspense, onde ele trabalha mais a antecipação do que o choque, numa mise-en-scène que raramente vai além da eficácia imediata.
Eficácia é, aliás, a palavra-chave deste thriller que sabe montar o cerco num edifício (lisboeta a passar por californiano) e usar a aracnofobia como motor. O espanhol mostra conhecer demasiado bem os mecanismos do suspense, nunca falhando redondamente, mas também segue esses códigos e regras com tanta disciplina que nunca chega a encontrar a sua voz.
Ao invés, ele faz aquilo que definimos como um filme “fun” escapista, daqueles que se veem tão rapidamente como se esquecem. Nisso, é Serena e o seu senhorio (interpretado por William Miller) que criam alguma dinâmica que ultrapassa a função imediata de fugir e servir de carne para aranhas bem rechonchudas. Ela é uma zeladora residente subvalorizada, aquela que tenta resolver problemas num prédio abafado e a cair aos bocados; ele é o proprietário avarento que aumenta as rendas, corta na manutenção e empurra para Serena os problemas que não quer pagar para resolver.
Quando chegam as aranhas, o filme limita-se quase a tornar literal uma relação de parasitismo que já existia. É também a partir dessa ocupação que Hernández encontra bons esconderijos para a ameaça, mas poucas imagens que consigam sobreviver depois do susto.






















