Geography is Destiny (A Geografia é o Destino, 2026) é a primeira longa-metragem da artista visual e realizadora búlgara Rayna Teneva. O filme coloca em evidência as condições de trabalho, a dicotomia entre uma fábrica de armas e a produção de rosas na cidade de Kazanlak – Bulgária, de onde provém Teneva. Ela atualmente vive em Viena.

Kazanlak é conhecida como a capital do Vale das Rosas, o centro da produção de óleo essencial de rosa damascena, um dos componentes valiosos para a indústria global de perfumes e cosméticos. Representa a única fonte de rendimento para milhares de famílias economicamente vulneráveis da Bulgária, na época da safra requer o trabalho de até 40 mil pessoas para a colheita das 15 mil roseiras.

As plantações de rosas são visitadas por turistas do mundo inteiro, que pouco ou nada sabem sobre o trabalho dos bastidores. Como mostra o filme de Teneva, a colheita das rosas é um labor precário e mal pago para os trabalhadores, na sua maioria ciganos, e igualmente para pequenos produtores.

Kazanlak é também conhecida pela fábrica de armas Arsenal AD, a maior e mais antiga da Bulgária, em funcionamento desde 1878, sendo em Kazanlak desde 1924, empregando cerca de 10 mil pessoas. Um trabalho de alto risco devido aos materiais explosivos.

No debate após a exibição de Geography is Destiny , a realizadora relatou que há anos queria fazer um documentário sobre as fontes de trabalho de Kazanlak, decidindo no final da pandemia Covid 19 retornar e viver temporariamente à sua cidade natal para realizá-lo. Teneva queria desvendar as histórias que determinam os meios de subsistência e a vulnerabilidade de seus conterrâneos. Não conseguindo acesso à realidade interna da Arsenal AD, ela candidatou-se à uma vaga de montadora de armas. No processo de seleção, foi informada dos riscos diários associados ao trabalho. Aceitou-os e lançou-se ao desafio.

Para realizar o filme, Teneva divide-se em duas: deixa uma câmara com o trabalhador Salim Assenov, que filma com a câmara nas mãos os colegas nos campos de rosas; e vai assumir o posto de trabalho na fábrica de armas, um emprego temporário, essencial para ela fazer o filme. Enquanto são filmados por Salim, trabalhador que a realizadora conheceu no campo de rosas e que contrata temporariamente para registar o cotidiano dos seus companheiros, pessoas ciganas. Eles respondem às provocações de Salim (em off), vozes que protestam contra o baixo salário e as más condições laborais, recebem 1,20€ por quilo de rosas colhidas, trabalham debaixo de chuva, vento e frio. A colheita das rosas é manual, rigorosa e precisa acontecer nas primeiras horas da manhã de modo a preservar a essência das pétalas.

A câmara manuseada por Salim documenta as agruras daqueles que trabalham na colheita das rosas, revelando um olhar íntimo e coletivo sobre uma condição laboral precária, a qual as pessoas parecem não conseguir escapar, lidando com o peso das tarefas diárias em busca de terem dinheiro para a sobrevivência. Ao final de cada dia de rodagem, Teneva encontra Salim para trocar a bateria e os cartões de memória, ele é creditado no filme como operador de câmera juntamente com ela.

Durante a jornada de trabalho da realizadora na Arsenal AD, não vimos imagens do interior da fábrica. No seu tempo livre, ela capta os ruídos do funcionamento diário da produção de armas e, através de palavras e gestos, conta-nos como é o labor dos funcionários. Ela transmite a sua experiência por meio do instigante design de som feito por Cristi Iorga. O som captado por Teneva leva-nos a adentrar na Arsenal AD. Colocando-se como funcionária e personagem do filme, ela arrisca a sua vida, seja pelo perigo inerente do trabalho ou pela possibilidade da Arsenal AD descobrir que ela se candidatou ao emprego somente para desvelar as duras condições de trabalho da fábrica. Até mesmo atirar, ela aprendeu na fábrica, como parte do seu treino. Este é a meu ver o diferencial da proposta fílmica de Teneva; ela não mostra as imagens no interior da fábrica, por ser um assunto perigoso e que poucos teriam coragem de abordar no cinema, e isto não faz falta no documentário. Os bastidores e o incessante risco da indústria armamentista permanece fora do campo de visão do espectador. Ao utilizar o som para transmitir os riscos diários dos funcionários, ela surpreende e estimula a nossa imaginação.

Quanto mais pessoas são contratadas para trabalhar na Arsenal AD, mais as guerras são municiadas, e as consequências pairam sobre Kazanlak, sobre o povo e a sua identidade. A nível local, à medida que a guerra na Ucrânia se intensifica, aumenta a procura de mão-de-obra. Os trabalhadores de Kazanlak, mesmo sem querer, fazem parte da máquina de guerra. Uma situação que pode refletir a realidade de outros locais do mundo. Na atualidade, as guerras são ameaças cada vez mais explícitas, somada à demanda interminável pela produção de armas.

A fábrica de armas e as plantações de rosas são duas indústrias moldadas por fatores distintos: uma pelas mudanças geopolíticas, a outra pela instabilidade climática.

Segundo Teneva, Geography is Destiny foi rodado sem guião ou estrutura prévia. O filme foi tomando forma durante a rodagem e, depois, na montagem de Marie Falke, construindo uma narrativa que mistura questões pessoais e coletivas, sem confrontar ou expor os trabalhadores, nem usar a câmara contra eles.

Vemos, através das imagens, de um lado, a paisagem das flores e, do outro, ouvimos os ruídos gerados pela pólvora: o quotidiano de quem vive entre a beleza e o perigo.

O filme revela uma história oculta da militarização, do trabalho precário e da desigualdade social. É também uma forma de denunciar os males provocados pelas guerras para além das balas disparadas e das vidas perdidas: um retrato de um povo que sobrevive sustentando, com a sua força de trabalho, uma indústria bélica que ameaça e interfere no seu modo de vida.

Depois de ter estado muito tempo distante, retornar à terra natal pode ser doloroso e surpreendente. É o que vimos por meio da ousada experiência cinematográfica de Teneva. Um filme espantoso, criativo e corajoso, onde ela usa a câmera como arma estética e política para revelar o perigo iminente da vida dos seus conterrâneos e os males que lhes causam o universo do arsenal bélico. Fiquem de olho neste filme, em festivais e em plataformas streaming. Vale muito a pena vê-lo!

Geography is Destiny é uma coprodução Filmwerk Kalliope, Bureau Artrecord, Alemanha, Áustria e Bulgária (recursos do BFW: Bulgarian Fund for Women – Fundo Búlgaro de Cinema para Mulheres). Assisti ao filme no Cinema São Jorge, dentro da programação do Festival DocLisboa 2026, com a presença da realizadora no debate. Antes foi exibido em La Biennale di Venezia –Bulgarian Pavilion, 2026; a sua estreia aconteceu no Sofia DocuMENTAL–Festival Internacional de Cinema.

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Lídia Ars Mello
geography-is-destiny-um-filme-da-bulgara-rayna-tenevaO filme revela uma história oculta da militarização, do trabalho precário e da desigualdade social.