Revelação francófona do Festival de Sitges de 2023, de onde saiu com o prémio especial do júri, Vermines(Infestednos EUA e Infestaçãono Brasil) torna-se particularmente singular na sua metade inicial, para além do seu engendramento horrorífico, pela cartografia social que faz da Europa contemporânea. A sua França é uma terra multicultural onde os jovens de origem árabe convivem com um contingente populacional diverso, no qual a sobrevivência é uma prática (ou melhor, uma arte) comum a todos. O protagonista, Kaleb (Théo Christine), é um especialista nas perdas impostas pela vida, sobretudo após a morte da mãe, mas faz do ofício da sapataria, num comércio nem sempre legal de ténis, a forma de se impor no bairro. Todos os satélites que o cercam, numa espécie de condomínio verticalizado pobre, que serve como um microcosmo simbólico das misturas culturais do subúrbio parisiense, lutam em seu dia a dia para ganhar o pão. Ou seja: estamos diante de um terror que se expressa por linhas geográficas. Na dramaturgia do realizador e argumentista Sébastien Vanicek, o medo é uma sequela da afirmação de território. A diferença aqui para outros títulos recentes de igual ambientação (como Dheepanou Gagarine) é que o temor não passa pela xenofobia ou pelos riscos da gentrificação e, sim, por monstros, no caso, aranhas assassinas.

Toda a sanha geopolítica de Vanicek (antes conhecido pela curta Crocs) é respaldada pela sua retidão no uso das cartilhas de género, sem pudor de apelar (e bem) para os jumps scares. Trata-se de um monster movie clássico, no qual nenhum debate sociológico se sobrepõe à dinâmica dos sustos. Tanto é que a conexão comAracnofobia (Arachnophobia”, 1990), de Frank Marshall, é imediata, não apenas por lidar com as mesmas criaturas, mas por ser também um painel sobre vidas à margem dos centros urbanos.

O ataque de aracnídeos que dá a linha de suspense a Verminescomeça depois que Kaleb decide ampliar a sua coleção de artrópodes, anfíbios, repteis e outros animais estranhos com uma aranha exótica, comprada no bazar de um conterrâneo. O apartamento está em ruínas e precisa ser vendido, mas ele está às voltas com o comércio dos seus calçados e não está interessado em se desfazer do lar onde cresceu com a mãe. O problema é que o novo bichinho que adquiriu fugiu e começou a se reproduzir, qual uma metástase macabra, gerando um exército venenoso, disparador de teias.

A montagem enervante de Thomas Fernandez e Nassim Gordji Tehrani assegura a Verminesum lastro de tensão que se amplia com a estética claustrofóbica da mise-en-scène. Limitações orçamentárias nítidas obrigam o cineasta a resolver com cortes bruscos uma série de situações que Hollywood executaria com quilos de efeitos visuais. O que prejudica a narrativa é o uso excesso de uma luz bruxuleante – no registo do chiaroscuro ­– na fotografia de Alexandre Jamin. Por vezes, as imagens se pasteurizam. A reviravolta final, contudo, oxigena o sufoco dos 25 destrambelhados minutos derradeiros da fita, que foi destaque da seleção Midnight do Festival do Rio 2024.           

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
vermines-e-um-aracnofobia-multiculturalistaO que prejudica a narrativa é o uso excesso de uma luz bruxuleante – no registo do chiaroscuro ­– na fotografia de Alexandre Jamin. Por vezes, as imagens se pasteurizam.