Baseado no romance do escritor greco-britânico Panos Karnezis, The Birthday Party, estreado na Piazza Grande do Festival de Locarno a 7 de agosto, mostra Willem Dafoe no papel de Marcos Timoleon, um magnata grego, bem ao estilo de Aristóteles Onassis. As semelhanças são óbvias: um milionário do ramo dos transportes, de base mediterrânica, regado a opulência, cercado de aliados e amigos (súditos, de facto) que se alimentam da sua boémia, e descendentes que carregam fardos psicológicos que tornam a relação com o patriarca complicada.

Assinado por Miguel Ángel Jimenéz (Chaika), o filme – passado na década de 1970 – decorre ao longo de 24 horas na ilha privada de Marcos (filmagens em Corfu, na realidade), onde este organiza uma extravagante festa de aniversário para a sua filha e única herdeira, Sofia (Vic Carmen Sonne). Além da festa, que atrai uma elite que vive à sombra de Marcos, e onde até não falta um “unicórnio” como prenda, esconde-se um plano sinistro: ele descobriu que Sofia está grávida do seu biógrafo — e fará tudo para que o aborto aconteça. Por isso mesmo, ele preparou a ilha com todas as condições para uma operação cirúrgica, tendo ao seu serviço um médico, um anestesista e uma enfermeira.

Com Sofia como a única herdeira da sua fortuna após a morte do filho varão, Marcos não está propriamente interessado no que se possa dizer dele após a sua morte, como deixa bem claro numa conversa com um jornalista, interpretado por Joe Cole, que mantém uma relação não tão assim secreta com Sofia, o que conduziu à gravidez. Acima de tudo, Marcos preocupa-se em controlar quem herdará a sua fortuna — não por amor à família, mas por lealdade ao seu pensamento e ao seu legado de poder, que acumulou por entre negócios claros e escuros.

Fiel ao espírito corrosivo do romance, Jimenéz transforma a tragédia familiar numa alegoria do poder absoluto e da corrupção hereditária. Nesse universo de cálculo e controle, o cineasta encontra em Willem Dafoe o Marcos Timoleon de eleição, um homem cujas palavras e pensamentos cortantes chocam com a elegância dançante dos seus movimentos; um homem que pensa duas ou três jogadas à frente, exige silêncios em troca de favores e sempre tem um trunfo na mão — como se vê logo na cena com a ex-mulher, a quem promete tudo em troca do seu apoio para convencer a filha a abortar. Na verdade, Marcos é o reflexo do patriarca de excelência, o provedor, juiz, guia, e guardião do legado familiar — mesmo quando o seu poder é tóxico, intrusivo e disfuncional.

Reside em Sofia, interpretada com sedução, paixão e fragilidade, a grande mais-valia do filme — só ela parece capaz de resistir a uma figura dominadora como a do pai, ainda que recorrendo às mesmas armas de manipulação herdadas da família.

Vic Carmen Sonne — que tem construído um impressionante currículo no cinema, onde se incluem presenças marcantes em A Rapariga da Agulha (2023) e Holiday (2017)— entrega uma atuação intensa, sendo acompanhada por Joe Cole, cuja interpretação contida, marcada entre a ingenuidade e vulnerabilidade, complementa o confronto emocional do filme.

Captando o caminho estreito da opulência ao hedonismo, com passagem pela degeneração moral — algo de que, de O Grande Gatsby a A Grande Beleza, ou vibrantemente no recente Yes, estamos bem apetrechados de exemplos na literatura e no cinema —, Miguel Ángel Jimenéz traz à luz o velho poder do quero, posso, faça-se.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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