Citado em prosa e verso, em parte por ser mesmo (ao menos na literatura) um dos oráculos da placidez no nosso tempo, Haruki Murakami escreveu em Kafka à Beira-Mar a tradução plena do que encontra no zeitgeist do Japão de 1949 retratado (aos frangalhos) em Godzilla Minus Zero. Segundo o romancista: “E quando a tempestade tiver passado, mal te lembrarás de ter conseguido atravessá-la, de ter conseguido sobreviver. Nem sequer terás a certeza de a tormenta ter realmente chegado ao fim. Mas uma coisa é certa. Quando saíres da tempestade já não serás a mesma pessoa. Só assim as tempestades fazem sentido”. É nesse lugar que o Gojira — termo nascido da junção de gorira (gorila) e kujira (baleia) — alcança, no título, um exótico (e até geopolítico) heroísmo. Em certa medida, a escamosa personagem-título do colosso enervante realizado por Takashi Yamazaki é um estrondo da História… um trovão do Tempo… o barulho do temor que liga os seus compatriotas ao trauma das explosões nucleares de Hiroshima e Nagasaki. É um ruído que serve ao medo… e ao rancor.
Nessa medida, duas figuras em cena são dicotomicamente essenciais e, por vezes, tão ou mais atraentes do que as criaturas no ecrã: o biólogo Kanji Murakami (Min Tanaka) e o Dr. Noda (Hidetaka Yoshioka, estupendo), diretor do Departamento de Catástrofes de Larga Escala. Ambos têm o desejo de medir a Natureza e usar os elementos da Física (aliados a máquinas de combate) a fim de eliminar o que é letal à Terra (no caso, à nação deles). Noda é esperançoso e tem fé de que o nosso lado humano possa ser demasiadamente maior do que a barbárie. Kanji, no avesso do colega, sonha com o extermínio radioativo dos Estados Unidos. Não é ressentimento: é reparação histórica. O Godzilla representa para ele um Harry S. Truman tamanho gigante. Visto hoje, pode-se dizer que se trata de um Trump gigante.
Sem dar a menor importância às investidas comerciais de Hollywood sobre a tradição japonesa das fitas de monstruosidades, como o esperado Godzilla x Kong: Supernova, Yamazaki explora as lutas entre leviatãs ancestrais deste planeta como alegorias geopolíticas. Minus Zero, embalado na banda sonora estonteante de Naoki Sato, é o seu Oppenheimer. Como Christopher Nolan, ele é, na dramaturgia, um teórico do ódio e, na forma, um artesão do desastre, um escultor do efeito visual. Não por acaso, o seu trabalho anterior, Godzilla Minus One (2023), foi oscarizado nessa categoria. Ele, Nolan, Guillermo del Toro, Tim Burton, Jon Favreau e (com a devida distância) Leos Carax são dos poucos cineastas autorais que sabem usar a parafernália da técnica em prol de algo que não soe falso, não pareça artificial como CGI, não emule a IA.
O seu novo trabalho é um espetáculo sinestésico, mas o seu eixo mais possante (e simbólico) é o debate sobre o Japão que se refundou com a II Guerra, após as explosões nucleares. Há 72 anos, Godzilla surgiu como uma metáfora popular desse fungo destrutivo. Não por acaso, existe um respeito tão grande pelo bicho que o seu filme original, Gojira, de 1954, ganhou uma sessão na Berlinale Classics, em 2024, para assinalar as suas sete décadas de existência. Nesse fluxo, Minus Zero lota salas entre os seus compatriotas.
Lançado em sessão especial no Festival de Nova Iorque, o filme confirmou rapidamente a força comercial de Godzilla no Japão, onde teve uma abertura de grande impacto. O que há de bonequinhos, canecas e camisolas com as feições escamosas do celacanto que provoca maremotos (e destrói prédios) hoje à venda é de impressionar o mais ambicioso dos mascates.
Pedra fundamental desse império, Gojira foi realizado na primeira metade da década de 1950 por Ishirô Honda (1911-1993), cineasta responsável pela criação do rei das bestas colossais ao lado de Tomoyuki Tanaka e Eiji Tsuburaya. Na sua trama, Godzilla é um ser pré-histórico que ganha proporções enormes e uma série de poderes atómicos, numa ressaca dos testes nucleares e do trauma deixado pela II Guerra Mundial. Nos anos 1990, Roland Emmerich tentou importar o lagartão para a América, mas fez um fracasso, com Matthew Broderick em cena.
Até Minus Zero aparecer e consolidar o prestígio de Takashi, foi Minus One que melhor explorou a mitologia histórica de Honda. Foi a 37.ª longa-metragem sobre a personagem cospe-raios. A realização de Takashi Yamazaki impressionou a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Fiel ao legado de Honda, deu à trama um timbre de folhetim, sem descuidar das sequências de ação e de destruição por um Japão assombrado pelas bombas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki, em 1945.
Agora, Minus Zero aprofunda tudo o que de melhor havia no seu antecessor, inclusive a tensão e o sentido de perigo. É um filme para se ver agarrado à poltrona. A trama passa-se em 1949, dois anos depois dos acontecimentos de Godzilla Minus One. O Japão ainda tenta reerguer-se dos estragos da Segunda Guerra Mundial e da devastação provocada pelo monstro. O antigo piloto kamikaze Kōichi Shikishima, novamente vivido por Ryunosuke Kamiki, agora divide a vida com Noriko (Minami Hamabe) e a filha adotiva Akiko. A aparente estabilidade dessa família é ameaçada quando uma nova criatura surge para espalhar destruição pelo território japonês.
O adversário atende pelo nome de Ghidorah. Inicialmente apresentado como um ser de uma só cabeça, capaz de disparar raios pela boca, transforma-se numa entidade dourada de três cabeças e duas caudas, dotada de uma força devastadora. Cientistas identificam a sua origem extraterrestre e tentam compreender a natureza do inimigo, enquanto o governo organiza uma operação para detê-lo. Os ataques, porém, não conseguem impedir a escalada da violência. Diante do fracasso das armas convencionais, a reaparição de Godzilla passa a ser encarada como a única possibilidade de conter a ameaça.
A batalha entre os dois gigantes coloca Shikishima novamente diante dos seus traumas e de uma escolha que ameaça a tentativa de reconstruir a vida. O cientista Kanji Murakami, interpretado por Min Tanaka, também carrega as cicatrizes da guerra: sobrevivente do bombardeamento de Hiroshima, alimenta um desejo de vingança contra os Estados Unidos e pretende transformar Godzilla numa arma.
A narrativa, assim, não se limita à devastação de prédios em ruínas e entidades colossais. O conflito entre os monstros prolonga a discussão sobre as consequências da violência humana, a memória da guerra e o risco de instrumentalizar forças que ninguém consegue controlar.
A produção entra também para a história técnica do cinema japonês como a primeira filmada para o formato IMAX, ampliando a escala das sequências de destruição concebidas por Yamazaki. A longevidade de Godzilla está justamente nessa capacidade de mudar sem abandonar as suas raízes monstruosas.






















