Defendido por artesãos do naipe da dupla inglesa Peter Lord e Nick Park, de Tim Burton e de Henry Selick, o stop motion é o terreno onde a animação, em escala industrial, mais se arrisca por veios de dramaturgia que pensam, por vias existencialistas, a fronteira entre o real e o ilusório. Narrativas de magia cruzam aos montes esta forma de contar histórias com objetos, filmados fotograma a fotograma para criar a sensação de movimento. Ligada à família Knight, por trás da gigante do calçado Nike, a Laika é hoje uma das produtoras mais ativas, com engenharia de estúdio, a filmar histórias que ganham vida com a ajuda de bonecos de resina. Travis Knight, que nos deu uma das mais vergonhosas investidas pela nostalgia pop deste ano — o medonho Masters of the Universe —, é o cineasta que mantém a Laika de pé. Mais do que um executivo, é também um criador ocasional, que se faz autoral ao mexer com fábulas ligadas a saberes druídicos e resquícios celtas em longas-metragens como Wildwood (Floresta Mágica).
Baseada no romance de Colin Meloy, ilustrado por Carson Ellis, esta aventura de tom barroco e visual bruxuleante impressiona bem mais do que o exercício poético anterior de Travis, Kubo and the Two Strings (2016), pelo equilíbrio entre o que há de soturno e o que há de lírico nas forças ocultas e num território de natureza inóspita. A banda sonora de Dario Marianelli torna a ambiência espectral ainda mais dúbia. Caleb Deschanel, medalhão do uso da luz, entrega a Travis uma fotografia que enquadra a floresta como se fosse uma progressão aritmética viva de mistérios. Cada árvore que farfalha e cada galho que cai sugerem terror.
Nesta produção de cerca de 100 milhões de dólares, torcemos pela vitória — e pela continuidade do processo de humanização — de uma adolescente chamada Prue (Peyton Elizabeth Lee), que, juntamente com o colega de escola Curtis (Jacob Tremblay), se aventura por uma floresta encantada em busca do irmão bebé, depois de este ser raptado por aves soturnas. Há também tropas de lobos armados. Durante a jornada, a dupla descobre que o mal que rodeia Prue e o bebé raptado vem de Alexandra (Carey Mulligan), uma aristocrata que perdeu tragicamente o próprio filho e abraçou a feitiçaria como forma de recuperar aquilo que perdeu. O corpo da criança morta foi engolido pela Hera, uma força vegetal da floresta, e Alexandra acredita que só despertando essa entidade conseguirá recuperá-lo, mesmo que isso implique uma destruição em massa.
Prue quer o irmão de volta, mas também quer o direito de se expressar com liberdade. Travis faz dela um signo das lutas feministas sem perder de vista o pavimento de fina fantasia onde ergue o seu conto de fadas cheio de ação, vetorizado por sustos e reflexões políticas. Alexandra é uma vilã complexa, vulnerável e sofrida, um pouco como a Corpse Bride de Burton, mas atravessada por um luto maternal. Acrescenta densidade à fauna de boas personagens da animação.
























