100 Dias trata da viagem do jovem Amyr Klink de Lüderitz, na Namíbia, até à Praia da Espera, em Arembepe, no litoral da Bahia, em 1984, atravessando o oceano Atlântico sozinho num barco a remos, numa jornada que, como o próprio título diz, durou 100 dias. O que interessa no filme é o retrato de um homem que se apaixona mais pela aventura do que pelas pessoas que o acompanham nela, seja na memória ou no auxílio presente. O realizador Carlos Saldanha tenta retratar a normalidade de uma situação completamente fora do comum, como se o protagonista fosse imune ao isolamento e ao sofrimento inerente à solidão.
Klink percorre o litoral de Santos em direção ao porto, na sua mota, até ao navio que o transportará para Lüderitz, de onde iniciará a sua jornada. Antes de partir, despede-se da mãe Asa (Philippine Leroy-Beaulieu) e do irmão Tymur (João Vitor Silva), que relutantemente o abraçam e se despedem. Ambos tratam a empreitada de Amyr como um risco desnecessário ao qual o jovem se está a submeter, sem uma causa objetiva. Somos então apresentados ao jovem a partir para a sua viagem, numa embarcação de forma semelhante a uma lâmpada. O barco apresenta dois espaços principais em que acompanhamos Klink: a proa, estreita e do tamanho de um homem, onde pega nos remos e segue, e a sua cabine, ainda menor, com cama, roupa e mantimentos armazenados.
Toda a preparação é rapidamente posta à prova quando os primeiros dias são marcados por tempestades impetuosas que inundam a cabine de Klink e fazem o barco capotar. Ali, com o rosto no teto, vendo todos os seus preparativos ameaçados pela força da natureza, observamos a engenhosidade: ao posicionar-se lateralmente, consegue fazer o barco regressar à sua posição natural. Rapidamente esvazia a água que entrou nos seus aposentos e, aparentemente munido de mais energia, inicia a rotina que seguiremos ao longo de todo o filme: acordar, remar, preparar e comer refeições desidratadas, dormir. Repetimos até à exaustão.
Saldanha acrescenta novas ameaças à desventura. Bolhas e calos instalam-se nas mãos de Klink, e uma pequena almofada alivia o desgaste físico que poderia impedir a progressão da travessia. O sol, por sua vez, tatua paulatinamente o corpo de Bragança. Barbatanas de tubarões começam a surgir em redor da embarcação, e cracas acumulam-se sob o barco, dificultando o seu avanço. Os perigos mudam e acumulam-se, mas Klink não muda com eles. A sua reação permanece marcada pela mesma obstinação prática com que resolveu o primeiro capotamento, como se cada novo obstáculo fosse apenas mais uma tarefa a cumprir antes de regressar aos remos. Ao longo da travessia, o filme vai colecionando pequenos aforismos retirados do livro escrito pelo próprio Klink, Cem Dias Entre o Céu e o Mar, que, embora poéticos, parecem mais deslocados da imagética de Saldanha do que do fluxo de consciência do livro. A travessia não se torna dramaticamente mais intensa.
O tempo pesa na morosidade do dia a dia. Acompanhado pelas próprias lembranças, Klink atravessa uma montagem que tenta agilizar a progressão dos dias da jornada através de flashbacks que detalham a preparação nos anos anteriores e a sua relação com amigos e familiares. Visitamos a sua casa e descobrimos que a relação com o pai Jamil (Felipe Camargo) é turbulenta: o pai é pouco carinhoso, demonstra um afeto brusco e o grande motivo do atrito entre ambos não é explícito.
Aqui, Bragança demonstra, mesmo que de forma não intencional, uma faceta controversa de Klink, que herda traços da dura cerviz do pai: durante uma discussão familiar, tem um rompante de raiva, esmurra a janela e corta a mão e o pulso, o que atrasa a sua jornada. Demonstra falta de cordialidade para com os amigos que cuidaram das suas preparações básicas, como Fúria (Duda Mamberti), que projetou o barco com muito cuidado, por amizade, e Flora (Martha Nowill), nutricionista que participou na preparação das refeições desidratadas, fundamentais para a sua sobrevivência em mar aberto.
O realizador Carlos Saldanha tenta contornar o tédio forçando uma leveza que as lembranças de Klink contradizem: tenta em vão tomar banho, sendo apanhado a sair da cabine com uma toalha enrolada à cintura e champô sempre que imagina que vai chover. Nunca chove quando ele quer; pragueja contra o céu. A montagem usa elementos cómicos da preparação da rotina, como cortes dele a vestir o fato-macaco, a aquecer a água para comer e a preparar as mãos para remar, com recurso ao zoom.
100 Dias encontra algum fôlego quando abandona a rotina e permite que o oceano ocupe o quadro. A pequena embarcação quase desaparece em planos abertos do Atlântico, e é justamente no contraste com a imensidão do mar que a cabine devolve Klink a um espaço tão estreito que mal comporta o seu corpo. A oposição deveria produzir claustrofobia de um lado e desamparo do outro, mas o protagonista parece estranhamente confortável em ambos. O mar ganha escala de ameaça para o espectador sem adquirir a mesma dimensão emocional para Klink, completamente isolado e refém de si próprio. Há algo de curioso na imagem recorrente de um homem minúsculo cercado por uma vastidão aparentemente infinita: quanto menor Klink parece diante do oceano, mais natural parece a sua presença ali.
Ao mesmo tempo, ouvimos “Owner of a Lonely Heart”, dos Yes, que parece comentar ironicamente um Klink de coração solitário, mas perfeitamente confortável na sua própria solidão. Quando colocamos as memórias, sempre dolorosas, ao lado da sua aparente alegria na forma como vive agora, somos obrigados a pensar que finalmente encontrou uma forma de viver que lhe agrada. Klink parece incomodar-se com interações mesmo em plena jornada: as mensagens de rádio que recebe parecem enfadonhas, mesmo quando fala com os familiares. O protagonista parece gastar mais tempo a dar explicações, entre risos constrangidos, sobre as saudades da mãe e do irmão do que propriamente a aproveitar o momento. Assim, Klink parece um homem rabugento perante qualquer evidência humana e plenamente feliz apenas quando está solitário.
A aproximação à costa brasileira deveria romper esta lógica. Depois de quase cem dias em que terra e presença humana existem sobretudo como lembrança ou voz de rádio, o regresso ao continente poderia transformar a solidão em algo de que Klink finalmente deseja escapar. Encontra um simpático pescador, que lhe oferece um peixe para comer e conselhos sobre a fúria das águas. Bragança contempla a interação com um olhar de constrangimento, com pitadas de surpresa. Klink deveria chegar a Salvador, agitada e mobilizada por muitos populares, curiosos, amigos e meios de comunicação social, mas prefere dirigir-se a uma praia remota, mais afastada do centro urbano. A chegada interessa menos como reencontro do que como conclusão da empreitada. Parece que Klink está, só agora, a deixar a sua verdadeira casa marítima e a entrar na terra estranha da areia da praia. É a aventura que encontra o seu destino, não o regresso de um homem ansioso por reencontrar as pessoas deixadas para trás. Isto reforça uma contradição que o filme construiu desde a despedida em Lüderitz: a solidão que deveria constituir a principal adversidade da viagem acaba por parecer, por vezes, precisamente a condição em que a personagem melhor funciona.
A questão é que o filme cai invariavelmente na monotonia. Saldanha não consegue fazer o suficiente para dar dinamismo ao filme, e a interpretação de Filipe Bragança de um homem feliz na sua própria definição de simplicidade transfere para o espectador o peso da jornada que o protagonista aparentemente não sente. Klink vence o oceano antes de o filme conseguir transformá-lo no seu adversário.




















